foto-perfil

Renata Corrêa é uma roteirista carioca & tijucana que mora em São Paulo, mas tá sempre na ponte aérea. Criadora do movimento anarco-baiano, acredita que o carnaval é a única manifestação popular capaz de unir todos os povos. Tira fotos muito ruins com uma Holga 135C, mas continua insitindo. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Caso queira esbarrar com ela, manda um sms, pois ela acha foursquare muito cafona e odeia falar no telefone.

Calma!

Logo haverá novidades por aqui. ;)

Me manda
um telegrama...

Ah! Tempos modernos...
Acho que é mais prático me enviar
um email, né? ;)

contato@renatacorrea.com.br

 

 

Você também me encontra:

Twitter (@letrapreta), no Linkedin, no Facebook, no Skype (correa.renata), e no Instagram (letrapreta).

Mulherada reunida no 5º grande ato contra o aumento das passagens

Ou, para os íntimos, mulherada no vinagre.

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E este blog volta à ativa com layout novo e por uma boa causa: convocar as mulheres para o 5º Grande Ato Contra o Aumento da Passagem.

A manifestação que já era legítima se tornou algo muito maior do que simplesmente os vinte centavos do aumento. É a respeito da liberdade de se expressar politicamente numa democracia sem sofrer agressões do aparelho do estado e de instituições militares. É, não estamos em 1968, mas ainda temos que nos contentar com a Polícia Militar nos agredindo por estarmos nos manifestando politicamente.

E por que uma convocatória especial para mulheres? Bom, somos muitas e diversas: profissionais, donas de casa, mães, solteiras, casadas, negras, brancas, lésbicas, héteros, trans, moramos em diversas partes da cidade mas como manifestantes temos as nossas especificidades e a mais trágica delas é a vulnerabilidade à violência física e sexual imposta pela Polícia Militar. É mais que urgente que mulheres não se sintam coagidas ou ameaçadas com medo de participar da vida política do País.

Os grupos FemMaterna e LuluzinhaCamp vão estar juntos, compartilhando o mesmo local de encontro, dividindo as mesmas informações e pontos de apoio previamente combinados.

Para nos encontrar, estaremos a partir das 16h em frente à FNAC da rua Pedroso de Moraes. Para nos identificarmos usaremos uma peça de roupa vermelha (uma camiseta, um lenço, use a criatividade!) e de lá partiremos para concentração no Largo da Batata às 17h.

Pedimos a todxs que espalhem pelas redes sociais a verdadeira cara do ato: pacífica, bonita, política. Usem seus smartphones e câmeras: compartilhe tudo de bom via facebook, blogs, twitter, facebook, instagram. E claro, os flagrantes de abuso também.

Apesar de muito se falar da violência policial (e é bom mesmo estarmos preparadas para o abuso institucional) a violência policial nada mais é do que uma orientação política dada pelo secretário de segurança ao comando da PM. Não acredito que o Alckmin seja BURRO o suficiente para se expôr ainda mais ao escrutínio da imprensa, logo, tô acreditando e torcendo por uma manifestação pacífica, como o movimento merece.

Para orientações de segurança a respeito de como se portar e como agir em caso de emergência, clique aqui.

E lembre-se:

Orientações para meninas e mulheres que vão à manifestação.
- Levem água mineral e pano limpo;
- Não deixem carteiras, celulares e dinheiro nos bolsos;
- Não vão de saia – os PMs estavam enfiando cacetetes debaixo das saias para desestabilizar emocionalmente as manifestantes;
- Quem tiver cabelo comprido não vá de rabo de cavalo, os PMs estavam puxando as meninas  pelos rabos de cavalo e é mais fácil de ser arrastada;
- Evitem mochilas e bolsas difíceis de carregar e vá com tênis confortável.
Para as mulheres que não tem onde deixar os bebês e crianças para participarem estamos organizando um ponto de apoio creche. Para maiores informações me contacte no email renatacorrea@gmail.com.

Para você que tem dificuldade de locomoção, não poderá comparecer por motivos de trabalho, não se sente seguro mesmo para ir, também pode contribuir.

O pessoal do grupo 365 Dias de Comida Honesta vai assar uns pães pros pontos de apoio, para saber mais clique aqui.

Os moradores de Pinheiros e arredores do protesto vão fazer pontos de apoio e liberar as redes de Wi-Fi para que todo mundo possa se comunicar livremente.

As mães do grupo Buxixo de Mães com bebês peticos que não podem ir na manifestação  vão fazer um ato virtual de apoio a partir das 17h.

Nos vemos lá!

Amigo Secreto Blogueiro 2012

Querida amiga secreta,

O tempo tava corrido e eu atrasei. Atrasei muito! Mil desculpas. Mas te conto agora, querida amiga-secreta-blogueira o quanto fiquei contente em te tirar, Cassia Alves!

A moça escreve no vitroleiros e no salada de cinema, dois blogs dos mais interessantes na área de cultura.   Curto muito o Salada de Cinema, vi a iniciativa nascer e como profissional da área vivo fuçando para ver as novidadinhas de hollygrude e também do cinema nacional, coisa raríssima na blogosfera de cinema, salvo críticos e poucos blogs específicos.

Mas o que me pegou pegou mesmo foi o blog pessoal dela, uma prosa leve, falando de cultura, postando novidadinhas e achados de música (destaque para o post da Elis Regina) e postando fotos de pets. Putz, pets! Curti demais.

Quem sabe das coisas certamente vai seguir a moça aqui e aqui.

Boa viagem, Cassia e um excelente 2013! <3

 

 

 

O mundo vai acabar

O mundo está acabando.

Na madrugada podemos ouvir

Seu ruir silencioso

Esvaindo-se circular

Como água da torneira

Caindo

Grão por grão

De um furo de furadeira

O mundo está acabando

Lento.

Ser paga ou ser pega – a lógica da propriedade e o estupro de Queimadas

Um estupro coletivo. A expressão não dá conta do tamanho do horror do ato – estupro coletivo, eu penso novamente, as sílabas tentando se agrupar para dar forma à violência. Mas neses caso as palavras não dão conta.

Em Queimadas, munícipio da Paraíba, dois jovens armaram um ataque para estuprar suas colegas de trabalho, amigas e vizinhas. Na festa de aniversário de um deles um assalto foi simulado. Sete mulheres foram violentadas, e duas delas foram mortas – a recepcionista Michele e a professora Isabela.

Michele e Isabela foram mortas pois ao lutarem por suas vidas acabaram reconhecendo os agressores. Segundo as investigações todos os homens da festa sabiam do estupro. Todos os homens da festa acharam que aquelas mulheres que ali estavam mereciam ser estupradas, violadas, mortas.

Dois aspectos do caso me chamaram muita atenção: dos homens que não não participaram de forma efetiva, nada fizeram, não as defenderam, não denunciaram. A outra coisa foi que duas mulheres que também estavam na festa foram separadas das outras e não foram tocadas. Essas eram as namoradas dos dois mandantes do crime.

Essas duas características aparentemente menores do crime é que revelam o tipo de misoginia perversa que se esconde dentro da sociedade. Os homens que não participaram ativamente do crime de alguma maneira entenderam que aquilo não era nada demais. É um direito dos homens estuprarem mulheres. E as esposas dos criminosos não foram violadas pois afinal, já eram propriedade de alguém. As outras não foram poupadas pois afinal, não existia nenhum homem que zelasse pela segurança desse “bem”.

Para os estupradores de Queimadas uma mulher é um objeto assim como um carro, um copo, uma camiseta. E como todo tipo de objeto sem dono, existem aqueles que podem ser pegos e aqueles que podem ser pagos. E nessa lógica perversa, já que as moças presentes na festa não pareciam estar a venda o mais lógico seria pegar e dividir o espólio dos corpos violados na maior comunhão fraterna entre os participantes.

Choca saber que coletivamente esses homens resolveram estuprar essas mulheres. Que nenhum deles teve a consciência e o desejo de dar um basta nesse plano macabro antes que ele acontecesse. Choca, mas se a gente parar pra pensar nos crimes sexuais que são noticiados quase que diariamente, todos eles seguem o mesmo tipo de pensamento: mulheres não são pessoas. Mulheres são coisas e devem ser tratadas como tal.

É nessa despersonalização, nessa revogação súbita do direito de humanidade das mulheres é que surgem esses casos. Enquanto a lei continuar branda com crimes de ódio, enquanto continuarmos educando nossas meninas e meninos na papagaiada do “prende sua cabrita que meu bode tá solto” casos como esses vão continuar acontecendo. Não podemos mais fechar os olhos para o fato de que essa situação se perpetua por que meninas continuam a ser ensinadas a se portar como vítimas em potencial e meninos continuam a ser ensinados a se comportar como predadores. Isso não cria só condições ideiais para o abuso, mas toda uma cultura que esconde esses abusos, que os tolera e que os aceita como parte da sociedade.

Meninas continuarão a ser estupradas em ônibus sem que ninguém as socorra. Abusos sexuais perpetrados por vizinhos e parentes continuarão sendo a regra.

Eu particularmente não conheço nenhuma mulher que não tenha uma história de abuso ou tentativa de abuso para contar. Que não tenha sofrido algum tipo de violência só pelo fato de ser mulher. E o caso de Queimadas é o pesadelo se tornando real, esse sentimento de superioridade e esse comportamento de privilégio por ter nascido com “o sexo certo a quem tudo é permitido” elevado as últimas consequências.

Não gostaria que esse caso servisse de exemplo. Gostaria que ele nunca tivesse acontecido. Infelizmente a realidade não é essa e temos que lidar com o fato de que vivemos em um mundo onde esse tipo de crime é comum, é relativamente tolerado e considerado por muitos como um crime menor. Não é. É exatamente o tipo de crime que quando ocorre nos deixa a todos, coletivamente, menos humanos. E é esse tipo de tolerância ao horror que devemos combater, não só pra fora, pros outros – mas dentro de nós mesmos.

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Esse post faz parte da blogagem coletiva de repúdio ao caso de Queimadas, convocado pelas Blogueiras Feministas e pelo Luluzinha Camp. Para fazer parte, basta externar sua indignação e reportar para que seus posts sejam linkados nas páginas desses blogs.

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Outros posts participam dessa blogagem coletiva

Antes de começar o carnaval faça um minuto de silêncio, por Marília Moscou

Uma história, nossa história, por Luciana Nepomuceno

Horror – estupro coletivo na Paraíba, por Juliana Marotti

Repúdio ao caso de estupro como presente de aniversário, por Cecília Santos

Não Estupre, Por Liliane Gusmão

Queimadas, estupro e a cultura machista, por Talita R. Da Silva

A lista completa e atualizada das Blogueiras Feministas.

A lista completa e atualizada das Luluzinhas.

Por trás do biquini também bate um coração

O que mais existe por trás do biquini?

Ah, coração.

Cantado, versado e prosado, o coração feminino é o último mistério a ser revelado: é o monolito do Kubrik, é o 42 no Mochileiro das Galáxias, é o que rima com paixão na letra do pagode, o que não rima com nada que a gente não queira.

Mas coração não é só metáfora. É real:  um órgão, um músculo, com ventrículos e aortas. Ele bombeia o sangue para o seu corpo. Não há vida possível se ele se recusa a bater.

E é por isso que a dona Lu convocou essa blogagem coletiva: mulherada anda esquecendo que coração é de verdade, coração envelhece, adoece, sofre, dói – e tudo literalmente. Talvez seja por que tradicionalmente as doenças cardíadas sejam associadas ao mundo masculino.  Mas infelizmente, desde de que a Peggy de Mad Men pisou nesse mundo, estresse no trabalho, tabagismo e sedentarismo não são exclusividade dos homens.

Estudos indicam que 1 em cada 5 mulheres está propensa a desenvolver problemas cardíacos. E como fazer para evitar esse prognótisco? Acho que todo mundo já sabe que o combo não fumar, boa alimentação e prática regular de exercício é a resposta. Mas falar é mole, fazer é que são elas.

Quando mudei pra Sampa engordei quase 10 kg. Simples assim, de 59kg pra 69kg em 4 anos. Como isso aconteceu? Simples, no Rio eu era uma garota ativa, que fazia academia 3 vezes na semana e comia a comidinha de mamãe que é super saudável. Em São Paulo o estresse de não conseguir trabalho, aliado as comidas deliciosas da cidade me jogaram ladeira abaixo. E esse ano eu resolvi tomar uma atitude.

Voltei a correr e a preparar minha própria comida. O home office ajudou, pois como não tenho carro, era um saco carregar a marmita no ônibus. Em seis meses eliminei 8kg, participei de duas provas de corrida, e tava bem satisfeita comigo mesma exceto pelo famigerado cigarrinho.

Confesso, fumava muito pouco. Nunca durante a semana, só quando bebia. Nunca tinha um maço em casa e quando dava vontade, filava sem dó nem piedade do fumante que estivesse por perto. Mas em uma visita na minha médica ela falou que em algumas mulheres esse hábito pode ser mega nociv: quem só fuma quando bebe acaba fumando MUITO durante as festas, dando um choque de nicotina no organismo que é como se você fumasse todos os dias! Então, dá pra perceber que não é uma atitude inteligente.

Tem um mês que parei de fumar.  A dica mais preciosa que me deram foi: encontre prazer naquilo que te faz bem, e não naquilo que te faz mal. O prazer é muito associado ao proibido e a culpa, só que não precisa ser assim, o prazer pode ser uma coisa mais solar, alegre. Que tal colocar o seu prazer um pouquinho na saúde? Não é pra ser chato, é pra ser prazer de verdade. Ou vai dizer que é ruim sair um pouco do computador e ver o sol lá fora? Ou sentir o cheiro do cabelo gostosinho de xampu ao invés de fumaça?

E tudo isso trás uma recompensa, que é poder viver mais e melhor com a quem tá dentro do nosso coração. Dessa vez com metáfora liberada. :)

Outubro Rosa

Uma menina, ainda que muito pequena, sabe que a cor de rosa foi destinada a ela. São objetos dos mais diversos, que só pelo fato de estarem embalados ou tingidos em Rosa são específicos do sexo feminino e que à elas pertencem, seja um sapatinho, uma barbie, uma toalha, um vestido, a armação dos óculos.

Mas Outubro é o mês onde o cor de rosa não tem gênero. É a cor de meninas e meninos, homens e mulheres que estão na luta pelo combate ao Câncer de Mama.

O Outubro é Rosa pois rosa é o laço que simboliza a campanha:

 

No Brasil, temos uma estatística muito triste: somos um dos países com um dos maiores índices de mortalidade da doença. E não, o câncer que aparece aqui não é mais forte do que os outros. É que nós, brasileiras por desinformação ou falta de recursos econômicos estamos na lanterninha dos exames de mamografia, o único que detecta a doença no seu estágio inicial. Aqui nessas terras tupiniquins, TRINTA mulheres MORREM por dia em consequência do câncer de mama. Novecentas mulheres por mês. Dez mil e oitocentas por ano.

Os médicos já sabem que o exame do toque só detecta o tumor em estágios avançados, apenas a Mamografia pode, de fato, salvar as mulheres.

Infelizmente, a maioria das mulheres já intui que a mamografia é importante, mas ainda não sabe fazer valer o seu direito diante dos governos e dos planos de saúde. Two cents:

O SUS é obrigado a fornecer uma mamografia por ano para mulheres acima de cinquenta anos, sabia?

E se você tem plano de saúde, exija o exame. Converse com seu médico e peça para fazer.

E se você é jovem e acha que não vai acontecer com você, saiba que os casos em mulheres com meno de 30 anos mais que duplicou na última década.

Alguns dados bacanas:

- Parando de fumar e emagrecendo 2/3 das mortes por câncer de mama poderiam ser evitados. (Não estamos falando de ter 40kg, e sim de manter um peso normal e saudável pra sua altura, através de alimentação adequada e exercícios leves)

- 45% dos casos de câncer de mama no Brasil são diagnosticados em estágios avançados.

- Diagnosticado de forma precoce, muitas vezes a Mastectomia (retirada parcial ou total da mama) nem precisa ser feita.

- A janela entre a primeira menstruação e o primeiro filho aumentou muito, fazendo os casos de câncer em mulheres jovens se tornar mais comum.

- Uma mulher com câncer no Brasil só consegue começar o tratamento na rede pública SESSENTA dias após o diagnóstico.

Então que tal entrar nessa corrente? Além de fazer sua mamografia anual, que tal convencer suas amigas, irmãs, tias, primas, colegas de trabalho a fazerem o exame? E rapazes, dêem um empurrãozinho para suas namoradas, peguetes, cafuçuas, ficantes, amantes e esposas, certo? Também é uma luta de vocês.

É hora de virarmos a mesa, mudarmos as estatísticas, para mostrarmos que existe sim, um futuro pós Câncer de Mama, que não existe sentença de morte e que a vida pode ser muito muito boa depois de vencer a batalha.

 

O Carioca Exilado

O Carioca é o cidadão mais apegado a sua cidade que existe. O palácio das Laranjeiras é a Casa Branca, o Cristo é a Torre Eiffel e todos nós transitamos pelas ruas do Rio como lords e marquesas no footing domingueiro no Reino Encantado da Avenida Atlântica, só que usando havaianas.

Daí a vida passa uma rasteira no carioca. Algo acontece. Uma proposta de emprego, um amor incovenientemente distante, uma nota dez num concurso público federal e lá vai o pobre Carioca morar em outra cidade.

(Aliás só duas coisas apavoram tanto o carioca quanto mudar de cidade: bala perdida e chope quente)

Mas voltando à vaca fria: o Carioca mudou-se de cidade e status. Antes, fidalgo de si, orgulhoso de conhecer a mais remota ladeira de Santa Teresa, o aviãozinho que vende seus bagulhos na embalagem de ovo, e todos os garçons do Arco Íris pelo nome, agora ele é um tipo macambúzio e tristonho, o Carioca Exilado.

O Carioca Exilado começa sua vida na nova cidade ou país com a marra que lhe é habitual. Dá risada do paulista que tem medo do guarda de trânsito, zoa com a cara do parisiense com sua bisnaga debaixo do braço, insiste em chamar o soteropolitano garçom de “mermão”. Mas como um preso político quicado do País pelo Costa e Silva, o Carioca Exilado também não faz a menor idéia de quando voltará para cidade e troca toda a marra por um saudosismo de fazer o Ariano Suassuna te chamar de antiquado.

Podia nunca ter colocado os pés no Morro da Urca, mas exalta a vista, podia nunca ter sentido as dores e as delícias de se espremer num trem da central, mas jura de pés juntos que o vagão do samba é a melhor coisa inventada na história da sociedade ocidental, podia odiar praia, mas ao olhar um retrato de nossa orla, chega a sentir nos lábios o sal do biscoito globo e o agridoce do mate com limão da lata. O Carioca Exilado começa até a admitir em público, que vá lá, a Barra da Tijuca nem é tão longe assim: afinal a linha amarela tá aí pra isso. Promete mundos e fundos para o amigo português, que vai levá-lo para comer o melhor bolinho de bacalhau do mundo. E não, ele não fica no Alentejo, fica ali num boteco obscuro da Rua Sá Ferreira.

E logo o banzo toma conta do nosso herói. O Carioca Exilado não consegue mais ver graça na cidade que o acolheu. Faz amigos, faz amantes, faz desafetos, mas ainda assim não se conforma que na nova morada ninguém fique de pé na frente na banca de jornal filando as notícias dos periódicos pendurados com pregador, ou que a opção “joelho” simplesmente não exista no cardápio de salgadinhos.

Fica então assim, através da tagarelice e da comparação de minúcias, alimentando essa eterna esperança de voltar aos braços da verdadeira mãe gentil, de em definitivo divisar a silhueta da cidade tão bem descrita no Samba do Avião, e finalmente poder descansar o corpo numa cadeira de praia, bebericando uma skol geladíssima enquanto lê a mais nova e genial manchete de capa do Meia Hora. Mesmo que, antes de se mudar, o Carioca Exilado só visse o mar da janelinha do ônibus que o levava pro trabalho.

E essa greguíssima tragédia perpetua-se até o Carioca Exilado perceber no calendário que se aproximam feriados nacionais, férias, a morte da tia Eunice. Sempre aquela oportunidade única de passar seis horas na Dutra pensando nas areias douradas dos seus sonhos. É recebido com os afagos esburacados da Avenida Brasil, exulta ao ver a placa que indica TIJUCA COPACABANA, lê com emoção os versinhos apagados do Gentileza perto da rodoviária, coloca os pés no solo sagrado, finge que é o Papa e se sente em casa novamente.

E sofre. Sofre mortalmente por ver sua amada assim: sem a maquiagem onírica da saudade, real, calorenta, suando. E acaba amando ainda mais. Ama tanto que ama até os caras que gritam chamando passageiros para as vans, o medo de parar nos sinais de trânsito à noite, se enternece com a menina de shorts cor de rosa e uns seis anos banguelas nos dentes, que te vende balas, drops, chicletes. Aí o Carioca Exilado sente o Rio de verdade, venoso, na linfa, no fígado e no peito: dentro.

Depois de uma semana de choque de ordem e realidade o Carioca Exilado deve voltar. No carro, no ônibus ou no aeroporto, ele leva um talismã qualquer: uma concha, um retrato no celular, um Guaraviton. Então seu coração se parte. E um olhar mais apressado pode dizer que esse coração se dividiu entre a cidade para onde ele vai e o Rio de Janeiro, mas o Carioca Exilado jamais cometeria esse tipo de traição. Ele está dividido sim. Mas entre o Rio real e o inventado, que cismam em disputar espaço na memória.

Exausto, ele dorme, cabeça encostada na janela, sonhando sonhos de Atlantis.

Um conto, Um filme

A Livia Perini, diretora linda da produtora Musique, me chamou para escrever o roteiro do seu primeiro curta metragem. Conversamos, vimos referências e eu mostrei para ela um conto antigo, da época do saudoso Aquele de Quem Lhe Falei. Ela curtiu e agora estou adaptando meu próprio conto como roteiro.

Lógico que tenho um caminho longo: o conto não tem uma história propriamente dita, é um registro sensorial de um homem abandonado pela mulher que amava: são sons e imagens de uma vida que foi feliz,  mas que agora não existe mais. Então tenho que construir um fio narrativo, uma história, mesmo que sugerida, para o nosso rapaz sofredor.

É uma experiência nova e linda. Deixo o conto abaixo pra vocês já irem imaginando um pouquinho do filme.

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Eu te amo

Quem me olha agora, e não sabe, e não quer saber, quem me olha, me pensa triste. Mas eu tenho nas mãos tantos dedos, que te esquadrinharam o corpo e com tanta habilidade, que não posso mais, nessa vida, ter o direito de ser triste, enquanto eu lembrar, e é tão tarde, tão tarde. São meus olhos nublados, a hora mágica da quase noite, e você virá, mas só virá até aqui pra revirar mais um pedaço meu, um desses, que está agora espalhado pela nossa casa, aquela, que era nossa casa, e é tudo tão grande. Sua mania de preencher todos o espaços: a gargalhada subia veloz para o quarto do sobrado, e me atingia o peito, eu acordava sorrindo por que eu sabia que era um sorriso de ouvir rádio, meu amor, só você sorri ouvindo rádio.

Eu deixei o mundo, queimei todos os meu relógios, o tempo passou durante os seus adormeceres e despertares. Eu me fiz maior, bom e forte, e você se fez altar se fez tão minha, tão, da mais profunda docilidade, da mais feroz e apaixonada, e espantava-me a veemência de cada um dos beijos, e da urgência de todas as suas confissões.

Conta no meu ouvido, engatinha na nossa cama e cola a boca na minha orelha, sussurra baixo o motivo, e lambe minha nuca, contando, sem parar de falar, porque diabos tivemos o melhor do amor e ele foi-se antes de você, deixando esse buraco de coisa arrancada da parede. Sobe em mim, me goza chorando, e avisa a hora que volta, por que eu espero, não mexo nem as pálpebras, e se você quiser, nem esboço felicidade quando o barulho da chave virando fizer a porta ranger, no compasso do tremor das minhas pernas.

Quem me olha agora, e não sabe, tão quieto que estou, talvez me pense indiferente. Mas eu tenho ainda tanta dor, dessas dores criança, que dançam no peito e exigem silêncio para dormir, eu te sofro calado, então, e te sofro devagar, em cada sofá, em cada chuveiro, em cada armário – eu deixo a porta aberta, para ver entrecortado um vestido azul – e nas janelas onde olhávamos todos o prédios de São Paulo, eram todos que cabiam, e você contava para mim todas as luzes acesas onde vizinhos fazem amor.

Quem me olhar de perto, vai ver que você está agarrada na minha carne, está sempre comigo, dentro do meu olho, no meu sangue, está comigo, sempre, mesmo que não saiba mais que estar dentro de mim é bom, ou tenha se esquecido de como é estar tão perto da plenitude, mas eu sei, eu lembro e eu peço. Para quem, não sei, apenas peço. Mas sobrou ainda a alegria dos retratos, todos os dentes brancos enfileirados, o olho apertado contra um sol de terraço, o apartamento de Ilha Negra, nosso mar, um céu cinza, na nossa onda de carros parados e de respiração do mundo todo sobre nós.

Miguelando

Nego miguelando 200 reais de cachê. Assim não dá pra ser feliz.

Pequenos e grandes privilégios

Sentar e bater um papinho com o Francisco Ramalho é um pequeno privilégio.

Grande privilégio é ser amiga dele. Ouvir suas histórias de cinema, trocar livros, filmes e impressões sobre arte.

Um gentleman perdido no mundo cão.

Nasceu escrevendo

Estou trabalhando com, ao que parece, a roteirista mais experiente do Brasil na atualidade. Não, ela não escreve a mais tempo do que as outras; ela só é a mulher mais velha na atividade. Aliás, conversando sobre isso com ela, dei milhões de rodeios para falar da idade e ela me disse

- Velha, sou velha, a gente só inventa palavra para o que é novidade e não existe. Velhice existe desde sempre…

Às vezes o eufemismo esconde nosso próprio preconceito. Velhice não é feio, afinal.

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“Comecei a escrever e nem tinha papel na chácara. Escrevia no chão de terra, com a faca na árvore. Primeiro escrevia o meu próprio nome. Diversas vezes. Depois outras coisas. Escrevi de início, sem nem saber o que era escrever e agora descobri que é isso que o escritor faz: escreve o próprio nome, diversas vezes.”

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Preciso mesmo dizer que quando tiver oitenta anos quero estar assim? <3

Obrigações e direitos no reino do tem que.

O que você faz pelo mundo?

Recicla? Privilegia o transporte público e pára de usar carro?

O que você faz por você mesmo?

Consome alimentos orgânicos, de produtores locais e que ainda são melhores pra sua saúde? Dorme oito horas por dia?

São atitudes louváveis que melhoram a sua vida e a vida do outro, certo?

Mas o que você pensa e como você age com quem não faz nada disso?

Sei que é um texto que começa com muitas perguntas. E eu quero isso mesmo. Que você que está lendo pense nisso, se pergunte, se questione. Pois essas atitudes ditas saudáveis, sustentáveis e “corretas” estão se tornando lugar comum e acabamos cumprindo uma série de regras e dogmas sem se perguntar se isso cabe para si mesmo e para os outros.

Estamos vivendo num reino lindo, onde você pode fazer o que quiser. A única regra é que você tem que _________ para o seu próprio bem. E nessa lacuna você pode colocar o que quiser. Exemplos:

Tem que fazer exercício 3 x por semana, tem que comer 5 grupos de vegetais por dia, tem que gozar sempre que trepa senão é frígida e não conhece o próprio corpo (se você for homem e broxar, nem te conto o que andam por aí dizendo de você), tem que fazer parto natural sem anestesia senão seu filho vai estar “sendo drogado antes de vir ao mundo”, tem que usar fralda de pano senão tá destruindo o planeta, tem que usar copinho menstrual no lugar de absorvente pelo mesmo motivo, não pode ter carro, não pode tomar remédio pra depressão (senão você é fraco, isso é coisa da sua cabeça, melhor fazer uma yoguinha ou encontrar um guru), não pode ter babá senão você não é feminista e teu filho vai ficar traumatizado, tem que plantar a própria comida dentro do apartamento de 39 metros quadrados para não ingerir agrotóxicos.

O que a maioria das pessoas que seguem essas regras de forma acrítica não sabe é que tudo isso é opção. E não é opção pra todo mundo, é opção pra quem pode.

Vamos aos fatos: um pé de alface orgânico custa quatro reais, contra um real do comum, uma academia para exercitar seu corpo e mente, cem reais, yoga duas vezes na semana, duzentos reais e um parto natural nunca é coberto pelo plano de saúde e a futura  mamãe vai ter que desembolsar de cinco a dez mil reais para trazer seu filhote ao mundo, quando muitas mulheres caem na faca por conta do médico do plano de saúde inescrupuloso que é o melhor que elas podem pagar.

Então, claro, se alegre se você tem todas essas opções ao alcance do seu bolso.

Não me apedrejem ainda. Eu acredito que opção é isso – se você pode ir a pé ou de bike pro trabalho você é um privilegiado – você tem o direito de fazê-lo. Não é uma obrigação, nem para você, nem para os outros.

A sensação que eu tenho é que o mundo anda com valores tão confusos que as pessoas se apegam de forma desesperada às tabuas de salvação que andam vendendo por aí. Ao invés de consumir menos, consomem a malha orgânica e usam sabão ecológico para lavar a blusinha de bambu de cem reais…numa máquina cheinha de água potável.

A gente não vai salvar o mundo. Aliás, o mundo, não precisa ser salvo, e se precisasse isso seria feito na gentileza, no diálogo e no bom senso, mais do que fazendo da vida uma série de dogmas e fingindo que pode existir um ser humano incorruptível e perfeito o tempo todo. Aceitando nossa natureza falha talvez tenhamos uma chance de viver num mundo mais equilibrado, menos careta e com certeza mais feliz.

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Esse post, apesar de não ter uma temática exclusivamente feminista, foi gestado e pensado com o auxílio luxuoso das discussões de uma thread entre as Blogueiras Feministas, grupo do qual faço parte, e foi depurado pelo telefone com minha queridona @ladyrasta. Só pra ficar claro, as opiniões expressas nesse post não representam as opiniões do grupo de Blogueiras Feministas nem a opinião da Lady Rasta, são reflexões minhas que cresceram e amadureceram através dessas mulheres. Obrigada a todas.

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Esse post também é dedicado às amigas Grazie Marcheti e Paula Bertola, que foram a faísca dessa confusão.

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Update do dia 21/09

Gostaria de esclarecer que todas essas decisões se tomadas de forma consciente e respeitosa consigo e com o outro não são problema nenhum. Aparentemente isso não ficou claro no texto – que muitas vezes no afã de fazer “o certo” as pessoas esqueçam de si mesmas e acabem comprando e executando um pacote que nada tem a ver com elas. Seja a mudança que você quer para o mundo, mas seja consciente e ativo. Não faça por que o outro fez e disse que é melhor. Mergulhe na própria mudança – esse é o caminho.

A pessoa certa

A pessoa certa é linda, tem senso de humor, inteligência.

A pessoa certa tem tudo aquilo que sonhamos que ela tenha. E nós, mulheres modernas, descoladas e independentes deixamos de sonhar com o príncipe no cavalo branco e com o yuppie casadoiro num jaguar conversível. Nós sonhamos com o pé no chão, com o real, com o possível. Basta que a pessoa certa nos apareça no momento em que podemos dar atenção pra ela. Que a carreira já esteja estabilizada e não precisemos dividir o aluguel naquele apartamentinho furreca, naquele bairro fuleiro. Que a pessoa certa tenha uma mãe prestativa, mas pouco invasiva, para cuidar do nosso lindo labrador dourado enquanto viajamos para Paris.

A pessoa certa é ética, divertida e original.

Jamais fala um lugar comum, a pessoa certa. A pessoa certa se envolve em uma causa nobre: resgata animais na rua, lê para crianças cegas, aplica sua grana em fundos sustentáveis. Mas milagrosamente a pessoa certa não é um coxinha politicamente correto e que te recrimina quando você quer pedir aquele delivery cheio de embalagens de isopor. A pessoa certa tem a leveza e a sabedoria de entender que devemos nos permitir alguns pecados, ou senão a vida fica sem graça. A pessoa certa ri da sua pronúncia troncha do inglês, tem um emprego muito bom e que paga muito bem, mas nunca vira noites no escritório e nem tem que viajar a trabalho, te deixando dias e dias na mais profunda solidão, aquele abandono específico que acomete quem se separa, mesmo que por um instante, da pessoa certa.

A pessoa certa vai nos fazer feliz.

Dizendo o quanto nos acha belas ao acordar ou com o rímel escorrido. A pessoa certa nos agarra quando voltamos da academia, sem se incomodar que não tomamos banho. Dá presentes sem data específica. Gosta da sua família. Quer dois filhos e adotar mais um, sem se importar com a idade ou cor da criança. A pessoa certa não quer morar em uma grande cidade e planeja, com você, um futuro confortável em uma praia do sul do País, recebendo amigos à beira da piscina.

Mas infelizmente a pessoa certa não vai nos surpreender.

Afinal ela existe só dentro de nós. Naquele pedacinho de nós que insiste em planejar tudo, em controlar tudo, em prever como vai ser a nossa vida “daqui pra frente”. A pessoa certa está presa, enclausurada em uma parte do nosso coração que ainda acredita que a felicidade  só existe quando encontramos a metade que nos fará plenas, esquecendo que ninguém merece esse fardo além de nós mesmas.

Somos nós as responsáveis pela nossa alegria de existir; compartilhar o amor é duro, difícil, desafiante. Pois compartilhar o amor com a pessoa certa é fácil, não tem atrito, conflito, discussão. Difícil é cuidar com generosidade daquele amor que surge com aquele cidadão que esquece de dar comida pro gato e fica berrando a cada gol do corinthians. Essa pessoa é aquela que quando te olha faz você ter um monte de dúvidas e uma única certeza. É a pessoa que a trancos a barrancos constrói com você uma felicidade real, palpável, das coisas da vida. É essa pessoa. A pessoa errada.

Das coisas mais bonitas do mundo

Passar pela ponte Rio-Niterói num dia de sol. Mas não daqueles dias de sol de céu limpo, e sim aquele dia de sol onde nuvens enormes e gordotas vão sendo deixadas para trás no Rio de Janeiro.

Das coisas mais bonitas do mundo uma das mais lindas é visitar os avós. Niterói é o reino dos avós, disputa palmo a palmo o título com a Tijuca e Copacabana. Mas Niterói ainda tem algo de especial: o ato de passar a ponte te desloca não só no espaço, mas também no tempo. Em Niterói uma visita aos avós ganha status de viagem, de descanso. Com Niterói ganhamos o cochilo da tarde após almoço antes de voltar pra casa, ganhamos uma história, entre ouvimos uma fofoca familiar. sem o deslocamento geográfico, não teríamos essa falta de pressa, essa ilusão de jornada.

Dentre todas as coisas que acontecem entre as coisas mais bonitas do mundo está o amarelo. Amarelo não é cor que se encontre com facilidade na natureza. Na Guanabara, somos engolfados pelo excesso de verde e azul. Mas amarelo é raro, amarelo é reino do afeto: amarelo é o bolo de fubá, o pastel, a macarronada de Dona Zilda. É o comprimido contra hipertensão do Seu Antônio. É a flor de plástico no centro da mesa, ao lado da tv. É na luz amarela da tarde que nos debruçamos para ver  o programa vespertino de sábado. Minha vó diz que eu não preciso chorar. Que o rapaz vai ganhar o carro ou a reforma da casa. Ela sabe, ela vê sempre. Eu nunca sei e choro mesmo assim. Não sei se pela possibilidade do participante da gincana perder dez mil reais, ou pela proximidade cada vez mais rara de suas mãos pequenas, versadas nas técnicas mais precisas e eficientes de fazer cafuné.

Dentre as coisas mais bonitas que existem, está também a mais triste delas, que é envelhecer. Não o envelhecimento das rugas, das artrires, artroses, glaucomas e diabetes.  Esse é inevitável. Torçamos para que aconteça, pois se não acontece é sinal do pior; estou falando envelhecimento silencioso do coração. Aquele que nos conta, sem pena, da finitude das coisas, que conta que estamos ficando adultos e que cada vez menos temos o direito e o tempo de não se preocupar, de não se importar, de esquecer. Aquele que nos conta que existe o medo, e que é necessário lidar com ele. Aquele que nos conta que não há ponto de retorno, e que tudo que temos é o nosso amor e uma certa solidão, que podemos compartilhar com ou sem generosidade.

É esse o dia mais bonito dentre todos os dias mais bonitos. Onde não temos medo do tempo, só a alegria de estar.

Não chame a coleguinha de puta

Val Marchiori é uma perua, que  é casada com um bilionário dono de frigorífico. Seu sonho é ser famosa, e para isso, batalhou uma vaguinha como repórter do programa Amaury Jr. O marido-empresário já confidenciou para os amigos que, em média, a esposa lhe custa duzentos mil reais por mês. Ela anda de jatinho, carro blindado, tem maquiador particular e um dos seus filhos se chama Eike em homenagem ao Eike Batista. Para suprema inveja de suas colegas quatrocentonas, Val saiu na capa da Vejinha exalando todo seu glamour.

Bastou a revista sair pra um monte de gente começar a falar mal da perua. Algumas internautas insinuaram que Val por ter declarado trabalhar como modelo na Itália, era puta. Afinal, modelo na Itália é carimbo de puta e todo mundo sabe disso. A Lady Rasta que é uma mulher esperta acabou catando essa matéria, onde o passado de Val é revelado: antes de se casar com o bilionário ela era uma empresária arrojada, num meio bem hostil para mulheres, bem sucedida e já rica.

Méritos e discussões à parte sobre o lifestyle da nova socialite paulistana, o que me chamou a atenção foi a pressa e a certeza com a qual várias pessoas taxaram Val Marchiori de puta. Afinal, por que nós mulheres temos essa mania horrorosa de ofender outras mulheres quando estas nos desagradam?

Puta, vadia, vaca gorda, piranha. É como se qualquer mulher que não estivesse dentro dos padrões do que achamos aceitável, ou dos limites que pautamos pra nós mesmas, merecessem a pecha. Anos atrás as mulheres tinham que ser recatadas, versadas nas artes do lar, se guardar pro casamento, fora disso, era tudo “perdida”. Puta mesmo, só as profissionais. Hoje, qualquer mulher que opte por usar um fio dental ou assumir que quer ser sustentada pelo marido pode ser chamada de puta sem a menor cerimônia. E como os limites estão mais elásticos, o xingamento ficou mais incidioso.

Por isso eu gostaria de lançar aqui a campanha NÃO CHAME A COLEGUINHA DE PUTA. Já não basta todos os homens que nos chamaram de putas anos a fio quando  vêem que temos nossa própria agenda pessoal e sexual, já não bastam todas as fofoqueiras de portão que nos chamaram de putas por que chegamos tarde e de pileque em casa. Agora chega, não é?

Chamar outra mulher de puta não mostra só sua raiva e desaprovação por aquela mulher. Mostra também o seu preconceito. Muitas profissões usam o corpo para conseguir glória, fama e dinheiro. Atletas e modelos, por exemplo. Todo mundo usando o corpo para o gozo público. Mas só a puta merece ter a profissão como sinônimo de conduta amoral.

Convoquei no twitter e no facebook para que mulheres em contassem histórias onde elas foram chamadas de putas, ou chamaram outras mulheres de putas. Algumas histórias são engraçadas, outras, muito tristes. Selecionei algumas, preservando a identidade das envolvidas. Obrigada a todas.

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“Certamente não foi a única vez (que fui chamada de puta), mas foi a única em francês. Na fila do táxi, dando abraços pudicos no meu namoradinho à época, e uma louca começa a gritar que eu sou uma puta e que tinha que ir para os campos, porque estava agindo como uma cabra no cio. Sim, cabra.

Afinal, exercer sua sexualidade e afeto, mesmo de forma recatada é uma coisa de bicho. E quem não consegue controlar sua periquita em público? Putas, claro!

“Eis que pouco tempo atrás, estava chegando aqui em casa quando fui contornar uma pracinha e um carrão veio na contramão. O cara veio prá cima com o carro e queria que eu desse ré para ele passar. Eu apontei a placa e disse a ele que ele estava na contramão. Ele acelerou ameaçando, eu retirei a chave da ignição e mostrei a ele, e perguntei na maior calma: O Sr. está com pressa? Entao, eu não tenho pressa alguma, posso passar o dia aqui esperando o Sr. tirar o carro… e aí ele começou a gritar pela janela: puta, piranha, vagabunda… eu não me contive, coloquei a cara prá fora e gritei : Sou mesmo e dou muito, por isso que não fico nervosinha no trânsito. O Sr. devia também experimentar!”

Deviam proibir putas de tirar carteira de motorista…

“Eu já tava noiva do G., quando a mãe dele disse que não queria que eu dormisse mais no quarto dele quando fosse visitá-lo (ele morava em outra cidade). Disse que sentia como se estivesse colocando uma puta pra dentro de casa, que dormia com um cara que nem era casada ainda. Puta por puta, fiquei mesmo puta e fiz um puta barraco. Quando nossa filha nasceu foi até difícil de olhar na cara dela. Agora tá tudo bem, mas ficou uma mágoa.”

Afinal a puta da noiva ia transar sozinha, sem nenhuma participação do casto filho dela.

“Eu e o D., a gente morava junto, eu tinha feito minha mudança pra casa dele a 2 meses só quando descobri que ele estava transando com uma aluna da faculdade. Pensei em armar o flagrante, pq sabia que eles iam pra nossa casa quando eu tava na aula do mestrado. Mas como já tinha os emails na mão, decidi não ver, não me humilhar. Um dia fui no estacionamento da faculdade e risquei o carro dela com um prego. Escrevi Puta na lataria toda, risquei vidro (…) se eu tivesse um litro de gasolina colocava fogo. Fiquei vendo ela chegar, olhar o carro. Ela começou a chorar muito, muito. Eu fui embora, me sentindo vingada, mas com um gosto ruim na boca, sabe? Depois de uns dias peguei minahs coisas e fui embora da casa do D., nem falei nada. Mas me senti muito mais humilhada do que se tivesse visto mesmo os dois né? Me senti muito mal.”

Queria saber do que o namorado traidor foi chamado…

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A Tina Fey tem um recado para vocês:

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Você conhece a Slut Walk? A “Marcha das Vadias” vai ter edição no Brasil.

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Agradecimento especial pra @rosana que me ensinou a embeddar só um trechinho do vídeo. :)

Coisas que os leitores não sabem sobre mim

Seguindo mais uma lista do desafio Nospheratt de blogueiros preguiçosos!

1 – Fiz Construção Civil no ensino médio. Cara, ninguém sabe essa. Construção Civil. E apesar de não ter terminado lá, e dos maiores sufocos da minha vida acadêmica terem sido aulas de geometria analítica, me diverti horrores. E conheci vários dos amigos que me acompanham até hoje. Mas é isso. Construção Civil.

2 – Hanna Roberts é meu alter ego para assuntos cafonas. Mandei um email para a editora que publica Julia Bianca e Sabrina oferecendo meus serviços. Se um dia eu emplacar como escritora romântica, assinarei como Hanna Roberts.

3 – Todo dia quando acordo, coloco o Ipod no shuffle e a música que começar a tocar vai “reger” o meu dia. É uma mandinga pessoal. Se sai “Fear of the dark” eu ignoro, se sai “All is love” passo o dia feliz.

4 – Choro todas as vezes que vejo Encontros e Desencontros, na cena que a Charlotte encontra o Bob Harris no bar no hotel e ela diz que não sabe o que quer fazer da vida. É horrível, parece que sou eu falando, apesar de eu mesma SABER o que eu quero, sinto muito essa inadequeção.

5 – Meus livros preferidos são Fragmentos de um discurso amoroso, Crônicas da casa assassinada, Lavoura Arcaica e o Vermelho e o Negro. Em nenhum deles *ATENÇÃO SPOILER” o casal fica junto no final. Em dois deles  o tema é incesto. Em todos eles os protagonistas são moralmente condenáveis.

desafio das listas – 5 blogueiros inspiradores

A Nospheratt desafiou e aqui estou eu, no primeiro post do desafio das listas. Quer saber o que é? Clica aqui.

O desafio de hoje é blogueiros inspiradores. Não vou elencar, vou apenas listar, pois são tão diferentes que não podem ser comparados.

Gil Brandão – Dizem que sua profissão é “pastor de raios”. Tenho o prazer de ser amiga desse curitibano fã de Cortázar desde 2002 (acho). O blog dele, o Meu Paredro, tem textos de uma delicadeza e qualidades sem igual. E num tempo onde todo mundo só pensa em aparecer, ele simplesmente deixa sua “página preta” sempre atualizada, sem se auto promover um milímetro. Um achado para poucos e bons.

Alexandre Inagaki – Precisa meso dizer por que? Acho que todo mundo conhece a trajetória do cara, mas o que quero contar aqui é como, eu, que tenho como ofício escrever, sempre me impressiono como ele consegue transformar suas experiências mais pessoais em algo universal e bonito para todos que lêem o seu já lendário Pensar Enlouquece.

Carla Lemos – Com 18 anos criou uma comunidade no orkut para fãs de uma marca de roupas femininas. Era tão competente no gerenciamento da coisa toda, que se tornou uma espécie de interlocutora entre a marca e as consumidoras. Ampliou a comunidade para falar de moda em geral. A comunidade virou o blog. E hoje a Carla Lemos é uma das pessoas que pensam moda de forma mais interessante no Brasil, no seu site o Modices.

Clarah Averbuck – Quando comecei a me interessar de verdade por internet, não existia nada mais inpirador que o extinto blog Brazileira Preta!. Se toda garota escritora quer ser Clarice Lispector, toda blogueira queria ser corajosa, visceral e intensa como Clarah era nesse blog, na primeira metade do século 21. Referências pop, #mimimis e um jeito torto de tentar se encontrar. Tudo em voltagem alta e ritmo acelerado.

Flavia Penido – Impossível não admirar alguém que diante de um tema polêmico (e tema polêmico é a nova onda da internet, infestando tudo como vídeos de gatos e tombos no youtube), simplesmente deixa a poeira baixar. Estuda. Conversa com quem entende. Analisa os ângulos. Nunca é a primeira a postar sobre algo, mas vira e mexe é a melhor a se pronunciar sobre qualquer coisa no seu sempre inteligente Lady Rasta.

Entrevista com Juliana Frank, autora do livro Quenga de Plástico

Juliana Frank acaba de lançar um livro. Seu primeiro romance. Isso seria uma grande novidade se todos nós, seus amigos e admiradores, não tivéssemos a absoluta certeza de que ela já teria lançado dezenas de livros. É que Jou é um poço de histórias e é difícil que a memória aquiesça que elas nunca tenham sido publicadas antes. Mas aí está, a história fez justiça, e Quenga de Plástico saiu do forno pela Editora 7 Letras.

O lançamento da intrigante obra de estréia de Jou Frank acontecerá no dia 6 de maio, na livraria da Vila. Abaixo, seguem o convite e uma breve entrevista com a autora.

L.P: A protagonista de Quenga de Plástico, Leysla Kedman, já existia antes do livro no blog Trocando de Biquini Sem Parar. O livro tem o mesmo conteúdo do blog?

R: O livro tem segredos impublicáveis. Muito mais conteúdo que o Blog.

L.P: Acredita que a internet seja importante para formação de novos escritores?

R: Para a formação do escritor o importante é a leitura, a imersão e o entusiasmo. A Internet entra para divulgarmos o nosso trabalho, para conhecermos outros escritores e claro, o google dá aquelas informações que suprem lacunas. Pertencemos a geração google do saber e quem faz discursos contra acaba sempre tirando uma fatia. É irresistível.

L.P: Leysla Kedman é uma representante da categoria “puta que pensa”, muito querida da literatura, como A Teresa Filófofa ou a Madame Clessi e agora a autobiográfica Bruna Surfistinha.  Por que essa figura fascina tanto?

R: A Leysla é mais uma filosoquenga, ela trata de pornosofias. As pessoas ficam fascinadas quando um escritor escreve coisas que ninguém pensa em ler. Mesmo acostumados com narrativas sexuais, as pessoas ainda querem saber como você pensa sacanagem. Uma visão distorcida do sexo e da vida é sempre envolvente.

L.P: Toda puta tem um pouco de escritora, narradora, contadora de histórias?

R: Todas as vidas vividas merecem um romance. A puta é uma colecionadora de vida, ao contrário dos filosófos puros, que são a platéia do mundo. As putas estão sempre em ação.

L.P: A literatura com conteúdo erótico saiu da obscuridade em poucos momentos da história: Anais Nin, Cassandra Rios, Hilda Hilst e mais recentemente Reinaldo Moraes conseguiram ultrapassar essa barreira. Acredita numa bela retomada da sacanagem literária?

R: O sexo é importantissimo pra história da literatura. Nas tragédias gregas, nos mitos antigos, todos se comiam. Essa coisa rasteira, prosaica do sexo, quando se mistura com o lirismo, com o humor ou no estilo direto da literatura contemporânea acaba mostrando que só criamos outras maneiras de narrar a mesma história.

L.P: O recém falecido escritor Argentino Ernesto Sábado dizia que  “Cuando el acto carnal termina para el hombre, para la hembra comienza. En cierto modo, la mujer es toda sexo.” Acredita que é por isso que a partir do século 19 a literatura erótica tem sido feita na sua maioria por escritoras?

R: Essa frase é uma visão bem romântica da mulher. A mulher sempre foi a mantedora do pecado. A literatura sempre  teve um compromisso com a mulher do mal. a Bíblia é uma sacanagem desenfreada. Hoje, as mulheres não são mais o objeto da literatura, sempre retratadas pelos homens, tomamos a primeira pessoa. Escrevemos nossas estórias com nossas próprias mãos. Acabou essa cultura de sermos retratadas pelo olhar do outro. Saímos do banco dos réus.

L.P: Vai continuar abordando o sexo nos seus próximos projetos?

R:  Tenho dois romances saindo. Não tratarei mais de sexo, o assunto foi limado até o sabugo. Gastei tudo. Tenho fixação pelos temas contemporâneos, pela fragilidade dos laços humanos. Apesar de não tratar mais de sacanagem, ainda continuo me debruçando sobre como o mundo do capital nos afasta de nós mesmos e nos transforma no que não sabemos se queremos ser. A Leysla Kedman tem um otimismo doentio, minha personagem de agora é anacrônica, niilista. São olhares distintos para um mundo igual, que nos trai de qualquer maneira. No outro romance que comecei quase sem querer, o personagem é um escritor acabado. Os meus personagens têm esse problema, eles precisam de espaço. Dessa forma vou encontrando o meu espaço que é minha arte – quando a tenho.

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Aguardo todos vocês na Livraria da Vila, dia 6!

Time break

Tô sem tempo pra respirar. Dois roteiros para entregar + coluna semanal + livro. Não tá fácil pra ninguém. :)

Os posts ficarão mais espaçados, mas espero que fiquem melhores também, como tudo que é feito com mais tempo e cabeça fria.

Até!

A terceira lei de Newton e o caso Arezzo

No momento em que uma pessoa nasce, aquela pequena bolinha de gente, berrando, toda suja de sangue e fluídos corporais, já chega ao mundo com uma série de deveres, responsabilidades, códigos éticos, morais e condutas sociais que devem ser seguidas. Mesmo antes de falar, um bebê é protegido pelo ECA, e seus pais devem zelar para que esse pequeno cidadão cresça e seja uma pessoa consciente, ciente de seu papel no mundo. Qualquer criança sabe, por intuição e repetição que todas as suas atitudes possuem causas e consequências: não jantou, também não come sobremesa, não estudou não passa de ano, foi birrento, fica de castigo, bateu no coleguinha da escola, fica sem recreio.

Mas ao que parece, uma das maiores empresas de calçados do País não faz a menor idéia dessa relação de causa e efeito, pois após ter sido bombardeada com manifestações contrárias à coleção PeleMania, que se utilizava de peles reais em bolsas, sapatos e acessórios, a Arezzo lançou um comunicado que, francamente, deveria entrar para os anais do gerenciamento de crise como “please, don’t”.

Quero dizer também que pouco antes de estourar a confusão, mandei um email para empresa que foi respondido apenas com um copy & paste do mesmo comunicado, que você pode ler na íntegra clicando aqui.

O comunicado em si tem uma frase que sintetiza todo a ideologia da empresa: “Não entendemos como nossa responsabilidade o debate de uma causa tão ampla e controversa. ”

Como toda criança sabe, como a física sabe, como até as pedras do caminho sabem, quando você toma uma atitude, seja colocar uma peça de roupa na sua vitrine ou deixar de fazer o dever de casa, você está se posicionando no mundo a respeito de algo. E essa posição vai causar algum efeito no que está ao redor. A Arezzo não pode simplesmente colocar peças de pele de raposa em seu catálogo e esperar que não seja sua responsabilidade debater a respeito, pensar junto e em parceria com o seu consumidor tirar uma lição do episódio. A Arezzo simplesmente se exime da responsabilidade, pois não enxerga isso como seu papel. Mas para infelicidade desse comunicado, essa frase é uma falácia. A Arezzo não pode se eximir dos seus atos.

O uso de peles, certificada ou não é cruel. Não é por que alguém te deu um selo dizendo que você estea dentro da lei que a morte e esfolamento de um bicho passa a ser uma coisa bacana. Ou passa?

Muita gente veio me dizer que seria hipócrita repercutir esse tema; afinal, a maioria das pessoas que se manifestou come carne ou usa couro de boi. Um boi vale menos do que uma linda e felpuda raposinha? Ela é fofinha então vale mais? Óbvio que não. Mas o consumo de carne bovina está arraigado na nossa cultura, deixar de comer carne e usar insumos animais é uma escolha consciente feita por muitos brasileiros. Isso é um avanço. Muitos brasileiros militam para que o tratamento dado aos animais em criações para consumo humano (bois, galinhas, ovelhas) não seja mais tão cruel. Isso também é um avanço. A sociedade está caminhando para uma relação mais interessante entre tecnologia e natureza, sustentabilidade e prazer. Retrocesso é oferecer pele de raposa como se fosse uma grande “tendência” e novidade em um país onde não se existe a menor necessidade de usá-las. Onde não existe a cultura de uso de peles. Apresentar crueldade como o grande must have da estação. Se o impacto visual da pele é tão necessário, usem as sintéticas, bolas!

Você sabe o que é especismo?

O presidente da empresa também parece desconhecer a tão combalida terceira lei de newton, que nos conta, desde os áures tempos da escola “Toda ação provoca uma reação de igual intensidade, mesma direção e em sentido contrário”. Anderson Birman além de nos dar a útil informação de que “pele é tendência”, nos conta, muito simpaticamente que tirou as peças das lojas brasileiras (isso mesmo, gentem, o produto vai ser vendido fora do país. fofo!) para não entrar de rota de colisão com ambientalistas. Em bom e velho português, ele não tá afim de ficar com o saco cheio pensando em por que, afinal, o uso de pele teve toda essa rejeição.

Entrevista na íntegra, clique aqui.

Eu posso dar algumas dicas pro Anderson Birman sobre por que afinal, esses garotos e esse cachorro idiota (essa referiência é um oferecimento Cardoso) colocaram a boca no trombone. O consumidor brasileiro está cada vez mais consciente e exigente. O consumidor brasileiro não é burro o suficiente para engolir qualquer tendência, quando uma tendência muito maior no mundo é pensar em uma sociedade mais justa e sustentável para seres humanos e animais. E que as pessoas estão tendo mais acesso a ainformação e ficando mais conscientes na hora de gastar o seu dinheiro. A verdadeira tendência hoje, o verdadeiro trend setter pensa em trocar uma experiência de consumo e não em consumir desenfreadamente. Então, seu Anderson, sua coleção foi um belo tiro no pé.

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Este post faz parte da blogagem coletiva sobre o uso de peles.

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Update

A estudante de veterinária Isabel Corrêa, vulgo minha irmã, me contou mais umas coisinhas agora pelo Gtalk. Quem quiser seguir a mocinha no twitter ela é a @drawbel

Isabel: o grande impacto das raposas é que o escalpo é removido com o animal vivo e desacordado somente.

quando é removido o escalpo e a “carcaça” é jogada nos cremadouros o animal ainda está vivo

consciente e se movendo.

sentido dor.

raposas são bonitinhas, boi já virou produto.

um boi  é uma mala de dinheiro pastando livre

entende a dimensão da consciência social?

você pode sim usar casacos e material de boi.

você já come a carne dele, isso não vai parar a produção e o abate.

agora, usar material de animal selvagem, criado e mal criado somente para luxo, é cruel.

hoje a fiscalização do abate bovino é surrealmente firme.

o boi morre e nem sabe que morreu

o país está exportando muito hj

por isso a fiscalização apertou severamente.

ai pensa, porque boi sim e raposa não?

porque raposa não é animal de grupo, não é uma presa natural e criar esses animais em grandes quantidade precisa de um sistema no mínimo insalubre.

confinamento em gaiolas.

quando não caça predatória.

e hoje a tecnologia nos permite ter sintéticos bem mais agradáveis do que as peles naturais.

o “fur” é praticamente um crime de sujeira.

porque além do fur, nada mais se aproveita daquele animal.

mas era só isso que eu queria mesmo explicar, porque muita gente que não conhece a linha de produção bovina a compara com a produção de fur.

Você não vai conhecer o homem da sua vida…

… se você continuar seguindo conselhos imbecis de revistas e sites especializados em relacionamentos. Nem o “gato dos seus sonhos”. Nem “aquela pessoa especial”.

Eu queria entender onde foi que a conexão genuína entre duas pessoas começou a ser pautada por regras, dicas, conselhos e fórmulas; que conhecer alguém virou um negócio lucrarativo dando ibope para psico-picaretas e a neo-terapeutas-de-porra-nenhuma.

Eu sei que algumas pessoas que lêem o blog devem estar pensando de onde eu tirei isso e por que eu estou falando desse assunto. E também devem estar estranhando o tom meio agressivo que eu estou usando. É que eu tive que aguentar uma grande amiga, uma quase irmã entrando em pânico por conta de uma “ficada de seis meses” ter se tranformado no “maior pé na bunda do Brasil” – palavras dela – e que ela achava que tinha feito tudo certo e que não sabia o que tinha acontecido de errado.

Então é assim. Relaciomentos afetivos super complexos hoje em dia são medidos na base do que é certo e do que é errado, do que pode e do que não pode. Ok.

Embuída de espírito investigativo, fui no google e coloquei os seguintes termos-chave para ver o que anda se falando por aí:

- gato dos seus sonhos
- dicas de conquista
- homem da sua vida
- ele ficar na sua
- pecados da paquera

É uma quantidade de abobrinhas tão absurda, que rola até um humor involuntário. Mas o que mais choca é que todas essas dicas e fórmulas tratam os indivíduos como se todo mundo fosse igual. Como se todos gostassem das mesmas coisas e como se o comportamento padrão não fosse afugentar um possível parceiro. A galera que me lê aqui minha dica é uma só: quem procura acha. E se você procura um homem que liga para esse tipo de regra, gata, você tá com um problema. Mas vamos as pérolas encontradas por aí.

DICA NÚMERO 1

“Mantenha o visual básico e descontraído do final de semana. Nós adoramos esse estilo. Se possível, acrescente alguma blusa com um decote não muito agressivo. Combinação matadora: top branco, jeans desbotado, cabelão solto e um tênis. Dá um ar de mulher esportiva, dinâmica, que vai acabar com a gente na cama.”

Gente, que porra é essa? O que significa manter o “visual descontraído”? #euri O mais engraçado é que a dica simplesmente desconsidera todos os homens do mundo que preferem quando a mulher usa short, vestido, escafandro. O pior: a dica desconsidera todas as mulheres do mundo que preferem usar short, vestido, escafandro!

Minha dica: você usa o que der na telha Se alguém tiver que gostar de você vai gostar por isso, apesar disso, ou sem ligar pra isso.

Você pode ler o resto do post abobrinha clicando aqui.

DICA NÚMERO 2

Seja feminina: “Invista em maquiagem, vestuário e fale com uma voz bem feminina.”

O fato é que nem todo homem gosta de maquiagem. O fato é que nem todo homem reparar numa unha descascada. Que tal ao invés de prestar atenção na jogada de cabelón, prestar atenção no que você está dizendo e no que ele está falando? Na minha terra, falar e ouvir é mais importante que um rímel lancôme.

E sobre voz feminina: o que diabos quer dizer com voz feminina? Eu preciso MODULAR a minha voz para conquistar alguém? Ok.  Mas aviso: se eu fosse homem, ao primeiro sinal de vozinha tati bi tati, momô, mimi, cocô, eu me enfiaria no bueiro mais próximo que aparecesse pra nunca mais emergir. Mas tem gosto pra tudo, então se você é feliz no diminutivo, se joga, pois certamente um homem fixado no aumentativo pode aparecer pra você!

Essa da vozinha feminina você encontra clicando aqui!

DICA NÚMERO 3

“Se há algo que uma garota boa de cama precisa ter, é uma marca registrada na cama – uma manobra original, que a torne inesquecível, a ponto de o namorado nunca mais querer saber de outra.”

Rá! Puxa, Gisela, eu não sabia que você fazia o duplo twist carpado com seu namorado! Pois é, vou mudar minha apresentação pra torção suplementar vaginal.

Sexo é química, é pele, é tesão. Se você  quer ficar planejando um número que a diferencie das outras,  aou invés de SENTIR e se entregar ao sexo, alugue uns dvds com performances do Bob Fosse, talvez ele te dê agumas idéias de sexo oral com purpurina. Vai ficar MARA!

Essa e outras abobrinhas sexuais você encontra clicando aqui!

DICA NÚMERO 4

“Não fale frases depravadas, pois este tipo de comportamento vai assustá-lo. Os homens são extremamente machistas”

Ok, gente, educação é fundamental. Eu particularmente tenho problema com palavrões. Sou meio boca suja e tals. Mas a justificativa UHUL dessa dica é “os homens são extremamente machistas”. Primeiro que nem todos são. E segundo, por que eu iria querer segurar minha língua para conquistar um machista? Para que qualquer mulher iria querer sair com um machista? Namorar? Casar? Que consultora sem noção! Vá de retro, se o antídoto de afastar machista for falar palavrão, puta que o pariu, tô salva.

Mais genialidades como essa, você encontra clicando aqui!

DICA NÚMERO 5

“Homem odeia mulher que bate de frente com ele. A mulher tem de ser esperta e não fica batendo de frente com os homens, e sim saber dar a volta”

Deus me livre quem discorda de mim. Imagina se minha paquera trouxer uma visão nova de mundo? Ou uma opinião? Vou ficar PASSADO!

Bom, se o carinha espera que você concorde em tudo com ele, ele é um trouxa. Não é isso que faz pessoas gostarem uma das outras e se ter uma opinião diferente é tão grave assim, é melhor o mocinho comprar uma bolha. É no embate de opiniões que nos conhecemos, que crescemos, que nos admiramos. Como amigos, paqueras, namorados e familiares. Não dá pra ficar achando que o mundo gira ao redor da sua visão do que é certo. E não vai ser a menina que vai querer namorar um egoico dessa magnitude, né não?

Mais notícias do senhor Ego clicando aqui!

Então leitora amiga, siga essas diquinhas bafo e fatalmente o homem da sua vida, sua metade da laranja, a ricota da sua dieta não vai aparecer. Por que amor, atração, desejo de ficar junto não tem absolutamente nada a ver com o que dizem que você deve ser e sim efetivamente com o que você é.

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Diquinha de leitura: Cyrano de Bergerac.

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Voltando a programação normal.

O medo de admitir.

Ontem, tristíssima com a tragédia no Rio, do atirador que massacrou crianças em uma escola de Realengo, comecei a ver o Jornal Nacional. Em dado momento, começou a reconstituição do crime via animação. A narração dizia que o atirador fazia disparos a esmo, sem escolher as vítimas.

No início do dia, quando eu soube que dez meninas e um menino tinham sido mortos pensei que o atirador estava escolhendo suas vítimas. Logo depois, no Globo News, o Rodrigo Pimentel, que de comandante do Bope a consultor de segurança agora virou comentarista-de-todas-as-nossas-tragédias, especulava que meninas sentavam na frente, e que meninos eram mais ágeis e teriam se safado mais facilmente.

Mas aí veio o depoimento do estudante Mateus Moraes, um dos pequenos sobreviventes. Ele foi assertivo: ele atirava nas meninas para matar e nos meninos, para machucar. A tia que perdeu a sobrinha e tinha um filho na mesma turma, que sobreviveu dá o relato apavorante do filho: ele disse que mataria as meninas bonitas.

O que existe entre o relato de Rodrigo Pimentel e a reconstituição do Jornal Nacional, que insistia que o assassino atirava a esmo? Machismo, ou a negação de que além de um crime de ódio inexplicável, o assassino ainda teve o requinte de escolher as suas vítimas? Por que temos medo de admitir que o que aconteceu possui características de crime de ódio, que é o crime que é voltado para uma parcela específica da sociedade (negros, gays, mulheres, crianças)?

Estamos todos muito chocados, realmente é difícil de engolir. Mas é mais difícil de engolir que no afã de explicar uma tragédia inexplicável a imprensa esqueça tudo o que aprendeu no curso universal por correspondência e esqueça um dado tão importante quanto esse: o assassino escolheu e encurralou suas vítimas preferenciais: meninas. E isso se configura como crime de ódio. Essa mesma imprensa esta manhã está soltando matérias com títulos como  ”Atirador TERIA sofrido Bullying”. “Teria” é futuro do pretérito, conjugação verbal  que conta para o leitor ou ouvinte que algo, no passado, pode ou não ter acontecido. Teria, galera, deveria ser abolido de todas as manchetes e ainda mais agora num caso como esse.

Me despeço aqui, pois a indignação, a dor e a tristeza não findaram com o dia de ontem. Deixo meus sentimentos para as famílias atingidas e que os garotos e garotas sobreviventes possam voltar a ter uma vida normal e ajudar na construção de um mundo mais justo, menos violento e mais igualitário para todos. Um mundo de paz.

Gente, pode isso no humor?

Fazia tempo que eu preparava um post sobre humor. Rolava um incômodo, da minha parte. Procrastinei. Não sabia de onde vinha o incomodo, na real, então não conseguia elaborar exatamente o que eu pensava ou sentia a respeito. Mas com o risco de repetir o Yuri Moraes em sua excelente Carta Aberta ao público de seu programa Gang Bang, vou tentar aqui organizar algumas poucas idéias do que eu acho.

Estou bem espantada com o caga-regrismo que se abateu sobre a galera que produz humor aqui nesse lado quente da Terra. De um lado, uma gritaria do que pode ou não pode. Humor pode falar de negro? E de gay? De loura pode? Síndome de Down? Cadeirante? HIV positivo? Terremoto no Haiti? Do Bolsonaro pode? Do outro lado uma galera que defende um salve-se quem puder, sem questionamento algum. Duas verdadeiras gangues que não se entendem.

Gostemos ou não, o humor pode falar de tudo. De qualquer coisa. O humor é um reflexo da sociedade, uma lente pela qual olhamos a vida. Uma MANEIRA de olhar o que acontece ao nosso redor. Aliás isso foi bem ilustrado pelo Woody Allen no filme Melinda e Melinda, lembram?

Dito isso, não podemos dizer que existe, digamos, um “limite temático” para o humor. O humor deve ser engraçado. Fazer rir. E ponto.

Lógico que não podemos esquecer que qualquer produto de entretenimento, arte e cultura de massa possui intrisecamente um valor ideológico embutido. Seria uma desonestidade intelectual dizer que não. Então quando algum redator está escrevendo humor, quando um ator o está interpretando, quando um humorista está criando ele está colocando na tela ou no palco a sua visão de mundo, o que você quer dizer sobre o mundo e para o mundo. Então não sejamos inocentes de achar que uma peça de humor existe como um fim em si mesma.

Você é o que você escreve; ou diz. Por isso esse incômodo lá do primeiro parágrafo cresceu quando eu li a entrevista do integrante do CQC Rafinha Bastos.

Para quem não leu a entrevista, basta clicar aqui.

Rafinha reclama do nosso “terceiro mundismo” no humor. Que aqui no Brasil as piadas devem ser de uma maneira correta, tutelando o espectador para rir na hora certa. O humor aqui, segundo rafinha é terceiro mundista pois é fácil de ser absorvido e que ele não faz humor para o “povão” e jamais o fará. Revolucionário para o entrevistado eram os Trapalhões pois eles “Faziam piadas racistas, tiravam barato de nordestino.” Basicamente ele reduziu Os Trapalhões a visão de mundo dele, já que o grupo era bem mais do que isso. Mas o que somos nós além de nossas opiniões?

Eu podia dizer um monte de coisas sobre isso, mas deixo dois prints do twitter do @ibere falarem por mim.

Rá!

Humor é Compromisso!

Eu nem tenho coragem de perguntar o que seria o “povão” para Rafinha Bastos. Deixo isso pra imaginação do leitor.

Particularmente CQC não é meu tipo de humor. Mas eu sei de muita gente legal que gosta. Eles tem público e eles tem todo o direito e dever de fazer o tipo de humor que fazem. Um humor que tem um target bem definido de classe. De quem quer atingir e de quem quer angariar simpatia.

Não acho que o “caso bolsonaro” foi acidente. Não acho que as ofensas a Preta Gil sejam engraçadas e tampouco acho que chamar mulheres, quaisquer que sejam elas, de prostitutas, faça alguém rolar no chão de dar gargalhada. Mas isso é só a minha opinião.

A ofensa pela ofensa, pode causar espanto, surpresa, vergonha alheia, constrangimento. Mas chega a ser desqualificar o trabalho de humoristas realmente engraçados, chamar isso de humor.

Pois isso aí não tá invertendo a lógica vigente. Isso aí não tá dando um nó, isso aí não tá sendo novo. Tá sendo velho. Conservador. Ultrapassado pra cacete. Nesse sentido, os bordões do Zorra Total estão anos luz a frente.

Uma piada que usa um tema machista, homofóbico ou racista não necessariamente é ruim, mas corre o risco extremo de não ser engraçada. Porque é uma piada velha. Já ouvimos isso milhões de vezes. Uma piada é boa quando reverbera, te tira da tua zona de conforto. E, gente, me desculpe quem gosta, mas fazer piada racista é mais velho que andar pra frente. Mais velho do que a piada do papagaio e do português. Mas piada tem TARGET, como todo produto. Então você pode decidir rir com aquela piada que o tiozão de Piracicaba conta pros amigos da firma no churras, com o Rafinha Bastos, com o Nóbrega ou com o Marcelo Adnet. Rir com cada um deles diz um pouco sobre quem você é. E isso não quer dizer que um é melhor que o outro. É a apenas uma questão de gosto.

Ai, Renata, mas que chato, então não podemos mais fazer piadas que envolvam negros?

Deixo o Stand Up da Wanda Sykes te contar uma ou duas coisas sobre como fazer uma boa piada. Com negro, gay, família e tudo mais o que tem direito.

Que tal uma piadinha de pobre?

Claro que podemos! Podemos sempre. De gordo também. De judeu, de classe média. Mas pra mim, politicamente incorreto é o South Park fazer uma luta épica entre Jesus e o Diabo num ringue, zoar literatura de vanguarda, ou fazer os pais dos protagonistas se matarem por um pipe de maconha. É o Homer Simpson estrangular o Bart. O Saturday Night Live falar de pedofilia usando como exemplo o filme O Profissional, que Natalie Portman estrela com 11 anos de idade. E para não fixar só nos exemplos gringos, temos o Bento Ribeiro no Furo MTV falando do Feliz Dia da Obesidade Mórbida ou a Dani Calabresa fazendo uma imitação hilária de Daniela Albuquerque no Comédia MTV. Ou o extinto Cilada do Bruno Mazzeo. O Gang Bang, do Adriano e do Yuri Moraes. É gente que faz humor raíz, com o propósito de divertir, sem medo, sem limites, mesmo tocando em pontos sensíveis como alcoolismo, sexo, bullying, diferenças sociais, incesto. E guess what? Engraçados pra cacete.

Um humor demolidor de verdade é exatamente isso: destrói a lógica, o senso comum. Se é para ser mais do mesmo, qual é o ponto?

Que tal uma pausa para uma piada de deprimido?

O negócio tá tão feio que outro dia veio um amigo reclamar que no meu roteiro tinha um paraplégico mau caráter. Repliquei que se paraplegia deixasse todo mundo gente fina, era preferível quebrar a espinha da humanidade. Aguardo voluntários.

Os olhos fechados de Liz Taylor

Os olhos fechados de Liz Taylor

Os olhos fechados de Liz Taylor

Em tempos onde a nudez é moeda de troca corrente entre aspirantes a artista sem muito talento, fiquei muito impressionada com a recém divulgada foto de uma jovem Elizabeth Taylor. Aos 24 anos, Liz pediu para seu fiel escudeiro Roddy McDowall para que a fotografasse. As fotos resultantes da sessão seriam dadas de presente para Michael Todd, futuro marido da atriz.

Logicamente, um primeiro olhar pode se assustar com um corpo natural, matéria rara por aí hoje em dia: músculos, pele, formas femininas sem grandes intervenções, livres de suplementos alimentares e pesos hercúleos levantados a exaustão em academias. Os seios, sem silicone, que ironia!, apontam para baixo, devido a posição da modelo. E mesmo assim se impõe como belos. E para completar, a dona da íris violeta, cor de olhos retumbante, simplesmente fechou as pálpebras. Os olhos fechados de Liz Taylor nessa foto para mim são muito intrigantes.

Talvez desconfortável com a própria nudez, ela tivesse fechado os olhos por pudor; não acredito nisso, apesar de não parecer nada plácida – a foto emana um desequilíbrio, a posição dos braços, das pernas, o pescoço virado – percebe-se uma vontade, uma resolução. Não vemos o sexo exposto dela. E mesmo assim, me parece uma das fotos mais revaladoras que vi. Nenhuma nudez graficamente explícita possui o poder de revelação dessa imagem, que mostra uma garota exercendo seu erotismo, seu conflito e seu amor por um homem.

Um verdadeiro fragmento do mistério que foi a atriz. Um mistério póstumo em preto e branco.

Oficina de Roteiro

Olá amigos!

Depois de tantos pedidos, tão sinceros e tão sentidos, estou montando uma turma da Cena Um – Oficina de Roteiro.

Teremos uma turma presencial que começa no dia 30 de abril em São Paulo e uma turma online que começa dia 10 de abril, para os alunos que moram em outras cidades. Aliás a turma online está quase fechada, quem se interessar tem que correr!

Ambas as turmas serão pequenas e cada aluno sairá da aula com um roteiro de curta para chamar de seu.

Para informações sobre valores, email-me. Contato abaixo!

Então, até lá!

Uma aula, muitas histórias!

A Mulher Transparente

Tudo começou discretamente. Muito discretamente. Eu, que me considero uma pessoa perceptiva só fui me dar conta um dia desses, e olha, foi um susto. E é claro que eu vou dividir com vocês, afinal, não é pra deixar assim barato um troço desses, então, sem mais delongas, enrolação ou encheção de lingüiça, eu deixo a bomba: existe uma conspiração para deixar as mulheres transparentes.

Juro. Não é paranóia.

Eu poderia dizer que é uma conspiração para deixas as mulheres invisíveis. Mas a invisibilidade daria uma liberdade estética tal para muher que ela não se importaria mais em fazer a sobrancelha, deixando assim a indústria cosmética abalada. Com uma mulher transparente fica mais fácil: com um fiapo de existência corporal, ainda se pode explorar muita neurose.

Começou com o iogurte de fazer cocô. Piadas a parte, o iogurte de fazer cocô é um sucesso. Várias amigas minhas tomam, e falam maravilhas. A propaganda diz que o normal é que a pessoa vá ao banheiro todos os dias de sua existência e que se você não for, estará gravemente fora dos padrões de saúde estabelecidos. Bom, isso não é exatamente verdade. Se a pessoa vai ao banheiro de dois em dois dias, ou de três em três e mantém uma alimentação saudável e bebe uma quantidade suficiente de líquidos, isso só significa que o ritmo da pessoa é esse. Mas como acreditar no seu próprio ritmo corporal se todo dia vem uma moça simpática te dizer que você tem que liberar, não pode ficar guardando o seu cocô dentro de você e que isso faz mal? Fica complicado acreditar no próprio corpo. No tal ritmo da natureza... Ponto pra eles! Eliminaram o seu cocô. Menos uma prova de que você existe. Você pensa que acabou, mas existem planos para depois que esvaziaram seu bolso e seu intestino: a dieta DETOX.

Aliás, eu não sei por que tanta paranóia com o próprio cocô, afinal, é só você abrir uma revista feminina, qualquer uma, para se deparar com uma tal de dieta DETOX (que ao que parece vem da palavra desintoxicação. Além de estar entupida de cocô, você está envenenada e não sabia), que consiste basicamente em bater couve com sementes germinadas no liquidificador e só comer (?) isso durante uma semana. Se você não come nada, amiga, não vai ser o iogurte que vai te levar ao banheiro, juro. E a sua transparência vai se configurando, pois eles foram direto na fonte: pra quê eliminar o cocô se ele pode deixar de existir? É só não dar comida pra essas neuróticas. Para quê ser sólida se você pode ser etérea?

Prestem atenção, não estou falando de higiene ou de cuidar da saúde. Tô falando do exagero. Tem caspa. Use o xampu específico. Gosta de fazer a unha toda semana? Eu mo o glamour pink, da Coloroma. E um perfuminho? Adoro. E se for um perfuminho lááá? Pois existe. E foi um troço me chamou muita atenção e certamente faz parte da mesma conspiração da transparência: um anúncio de “protetor diário eliminador de odores”. Se você é homem e está lendo isso, um protetor diário eliminador de odores é um absorvente para ser usado quando a mulher não está menstruada. Estranho? Espera para ouvir o resto: ele elimina o odor natural da vagina deixando um leve aroma de flores. Amigos e amigas: segundo o fabricante a pobre periquita exala o odor da vergonha. Tem a ver com sexo, mas eles não sabem verbalizar direito, então colocaram um agradável e suave aroma de flores, para se alguém, por ventura, chegar ali perto, não achar que você sei lá, tem grandes lábios ou um clitóris e sim uma linda plantação de PEÔNIAS no meio das pernas. Eu, que adoro peônias, decidi que gosto mais da minha vagina (vamos lá gente, todo mundo junto falando alto VA-GI-NA) da maneira que ela se apresenta. Mas né? Devo estar errada, já que querem camuflar a existência da coitada com um protedor diário eliminador de odores. Mas eu realmente não estava preparada para o que vinha a seguir. E o que vinha a seguir era digno de ficção científica:

Bleaching de partes do corpo. Bleaching é o processo de alvejar. Esse que sua vó fazia com os lençóis e toalhas brancos quarando no varal. Toda vez que eu uso vanishing na máquina de lavar roupas eu já me sinto um pouco neurótica, mas percebi que sou uma neurótica padwan e existem neuroses muito mais Jedi: um desodorante que clareia a sua axila. Muito bem informada, a moça da farmácia nos Jardins (onde mais, senhor?) me explicou que o bleaching é um “super conceito” lá fora. Que começou com o bleaching da pele dos cotovelos e joelhos, naturalmente mais escuras e agora temos desodorantes clareadores. Pra mim é um alvejante de sovaco. Não entendi até agora por que querem apagar o meu sovaco. O que ele tem de tão agressivo e fora da lei pra ser condenado assim? Talvez a mocinha tenha achado que a minha cara de espanto era pela maravilha da novidade e me confidenciou: Nos EUA a mesma empresa faz produtos para clareamento íntimo, anal e vaginal!

Santo google! O troço existe, eu vi! Você vai clicar aqui e também vai ver. Não basta nos destituírem do direito ao nosso cocô. Querem apagar o buraco por onde ele sai. Mas faz todo sentido: o cu ficou obsoleto se você não tem mais cocô nenhum para fazer. Podem apagá-lo à vontade. Photoshop de cu da vida real. Só esqueceram de contar para os homens e mulheres que fazem uso recreativo do orifício, que agora vai ficar mais difícil localizá-lo. Quem sabe com uma lupa, de luz acesa, ou literalmente voltando o fiofó pra lua cheia.

Transparência, meu bem. Eu que sempre valorizei esse conceito nas relações, vi que o troço foi além, muito além. Precisamos agora incorporar a transparência, personificar um eu-translúcido, sacrificar pedacinhos do nosso corpo no altar da cosmética e se assim não fizermos, vamos ser rotuladas com o relaxo de mil viúvas dos gatos. Aguardo um futuro sombrio. Ou melhor, um futuro brilhante. Tão brilhante que ofuscará o que nos resta de genuíno e de digno quando tivermos coragem de olhar no espelho.

Eu Sempre quis dizer – teaser

Eu Sempre Quis Dizer é um documentário independente. Entenda por independente que esse pequeno filme é um documentário feito completamente com recursos próprios e ajuda de amigos. Em dupla com minha parceira intelectual e de crime Livia Perini, que faz a câmera e  edição e com nossa chaveirinha Laila Pas, estamos transformando essa idéia em algo real.

Pra quem não lembra, Eu Sempre Quis Dizer é um documentário que fala sobre aquelas coisas que um dia foram importantes para nós, mas foram engolidas pelo tempo. Para dizer algo que por medo ou desencontro não contamos. E esse é um trechinho da Tati, nossa primeira entrevistada.

REEDITANDO. QUEM VIU, VIU, QUEM NÃO VIU, SÓ NO MEIO DA SEMANA.

ATÉ LÁ. :D

Entenda por que Maria Bethânia não está roubando o seu dinheiro

Em primeiro lugar eu queria falar que curti muito a discussão no twitter. E que é legítimo discordar do valor ou dos critérios do Ministério para liberar o dinheiro. É legítimo enxergar distorções na Lei Roaunet. Eu também enxergo, várias delas.

Mas é importante deixar claro que, gostando ou não da Maria Bethânia ou do Andrucha, eles não estão se locupletando. Eles não estão usando dinheiro indevido. Eles jogaram limpo, dentro das regras da Lei de Incentivo e isso não é questionável gostemos da Lei ou não, achando o orçamento alto ou não.

Mas vamos lá, como diabos funciona a Lei Roaunet?

Ela funciona com recursos INDIRETOS do governo. Ou seja, a empresa poderia simplesmente pagar o imposto integral pro governo, mas resolveu se habilitar para aplicar esses recursos diretamente em projetos pré aprovados pelo governo e abater esse custo de seus impostos no ano seguinte. E para quem não sabe, as empresas só podem abater até 6% dos seus impostos com esse recurso. Então não dá pra ficar lavando bilhões de doletas com Lei Roaunet, ok?

Não sei se vocês sabiam, mas você e eu podemos fazer o mesmo. Aplicar recursos pessoais, em projetos culturais. A Lei Roaunet funciona também para você, pessoa física: ao invés de pagar o seu dinheiro pro governo, você o aplica em um projeto e depois abate do seu imposto de renda no ano seguinte.

Que critério você usaria para apoiar um projeto cultural? Obviamente você seria criterioso. Olharia orçamentos, estudaria a viabilidade, o impacto na sociedade. É uma opção que o governo te dá de como usar o dinheiro, mas o nome que estará associado ao projeto é o seu, correto?

Muito se diz da falta de ousadia das empresas. Que elas só liberam recursos para artistas já conhecidos. Que um novato jamais conseguiria captar.

Bom, realmente, deve ser mais fácil para Bethânia ou para o Antônio Fagundes captarem recursos. Mas filmes sem nenhum apelo comercial, documentários, pesquisa de linguagem, peças, shows, projetos de preservação de patrimônio imaterial (como a congada) e pontos de cultura também conseguem beber da mesma fonte, e tocar os seus projetos menores. Com mais dificuldade de captação? Certamente. Mas ainda assim os projetos são viabilizados.

Argumentos esquizofrênicos

Outra coisa que me impressionou na discussão foi a esquizofrenia de argumentos, mesmo quando eles se originavam da mesma pessoa. Um certo momento alguém me disse que o governo não deveria patrocinar (e nem é patrocínio, gente…) artistas estabelecidos pois eles “conseguem sozinhos”  e “fazem bilheteria por si só”, para logo depois a mesma pessoa vir me dizer que não aguentava o governo dando dinheiro “pra poesia, que ninguém se interessa, tem vlogger por aí bombando com uma webcam”. Decidam-se então: ou o Ministério tem que aprovar só projetos campeões de audiência com uma grande viabilidade comercial ou o Ministério tem que apoiar artistas com trabalho autoral que não conseguiriam recursos diretamete de patrocínio ou comercialização de seus projetos.

Cultura não é só aquilo que gostamos de consumir. Que achamos que merece ser divulgado. A produção artístico-cultural tem um gosto plural, não é por que você não gosta ou não vê relevância que não é vealido. O Bumba meu boi é cultura tanto quanto o filme Se Eu Fosse Você 2. Ambos merecem existir, fazem parte da nossa cultura sim. Você gostar ou não é apenas seu gosto. Poesia é importante, Maria Bethânia continuar produzindo é importante, tanto quanto é importante  o trabalho do Nós do Morro, do AfroRaggae, da Adriana Varejão, do Eduardo Coutinho ou da Tulipa Ruiz continuarem firmes e fortes. Aliás é lindo o projeto da CUFA que captou recursos com a Lei Roaunet. Cufa pra quem não sabe é Central Única das Favelas. E como nós bem sabemos, favela não é exatamente um hit para a nossa classe média, mas está fazendo arte e cultura de boa qualidade com recursos governamentais. Então não venham me dizer que projetos de menos visbilidade não merecem atenção do MinC! Isso é balela.

A questão da internet

Eu particularmente, duvido que essa gritaria toda acontecesse se esses recursos fossem captados para uma adaptação de peça de teatro como Hair, ou se a Maria Bethânia tivesse usado os mesmos recursos para produzir um DVD edição deluxe vendido por 50 reais.

Mas ainda vemos a internet como meio menor. Nossa, ela vai fazer um blog. Não, ela está fazendo um projeto audiovisual onde recitará poesias e usará como suporte de exibição a internet. Isso faz do trabalho dela menos valoroso? A mim parece muito interessante, no Brasil onde a maioria dos artistas vê a internet como o monstro dos downloads ilegais uma artista usar recursos públicos e disponibilizar o seu trabalho para… o público! Irrestritamente!

Lógico que no meu mundo ideal esses vídeos da Bethânia seriam todos CopyLeft, mas isso aí já é sonhar alto. ;)

Só uma provocação…

A classe média adora reclamar dos impostos. “O governo está roubando o meu dinheiro! E não aplica em nada! Em saúde, educação!”

Quando você paga o imposto ele é seu dinheiro, mas quando uma empresa paga um imposto ele é dinheiro do governo?

Aí quando uma empresa e o governo resolvem eliminar intermediários e deixar o imposto ir DIRETO para um projeto, isso não pode? Ah, tá.

A questão do custo do vídeo

De mais a mais NINGUÉM teve acesso ao projeto. Não sabemos se a Bethânia recitará poesias pendurada no Cristo Redentor ou num fundo preto, ou num Chroma Key. Se Bethânia usará poesias próprias ou pagará direitos autorais para recitar poesias de outros autores. Não sabendo isso não dá nem pra questionar o valor do vídeo. É tudo achismo por enquanto.Muita gente veio me dizer que o custo do que está na web é mais barato. É mais barato em termos de distribuição, mas em termos de produção, dá na mesmíssima coisa. Mas volto a dizer. Se cada vídeo tiver um minuto… São 365 Minutos de material. É muita coisa, e custo de audiovisual no Brasil, infelizmente, é elevadíssimo.

Por fim…

Me trolaram. Me chamaram de burra. Reaça. Paladina da classe média. Disseram que eu “menti” (?). Queria entender quando que dar uma opinião se tornou tão terrível, ofensivo, quando na verdade é no debate de ideias que as coisas mais interessantes surgem. E agora deixa eu ir escrever o meu roteiro que não é nem a Bethânia, nem o governo, nem o Twitter que estão pagando meu salário. :)

E para quem não viu, o post no twitter que começou toda a confusão: http://www.twitlonger.com/show/9af6dj

Tudo culpa da Flavia “coloca no twilonger” Penido.

A Desgraça Alheia

Quando fui ao show da Amy Winehouse em janeiro deste ano lá na Arena Anhembi não fiquei impressionada com a performance da cantora, com sua magreza ou com seu famoso picumã. Ela obviamente não estava em condições de se apresentar e seja lá os motivos ou pessoas que a fizeram subir no palco, não pude deixar de sentir uma pena enorme daquele ser humano, tentando se reerguer na frente de milhares de pessoas, sem nenhum sucesso.

O público que estava lá, parecia se deliciar com a decadência de Amy. A cada vez que ela errava a letra, tropeçava ou parecia perdida as pessoas gritavam, brindavam, pulavam. Como se o show não fosse a música, e sim a documentação da destruição daquela mulher. Movimento parecido aconteceu com Nina Simone e Ella Fitzgerald: a dor delas se transformou em atração, junto com a voz poderosa e casamentos desfeitos. A diferença é que com a Amy Winehouse o escárnio virou parte do show também. E cada vez que pulavam e comemoravam a queda dela eu ficava completamente penalizada. Por que diabos estavam comemorando a desgraça daquela pessoa? Amy Winehouse é uma artista revolucionária, com uma voz maravilhosa. Ela trouxe vida nova ao soul, suas músicas são divertidas, inteligentes. Sua simples existência conseguiu renovar toda uma cena musical, e se hoje você ouve feliz da vida Mercy, da Duffy ou se impressiona com a beleza do disco 21, da Adele, saiba que sem Amy, talvez elas estivessem tocando em algum Pub para meia dúzia de bebuns.

Daí que dia desses veio a notícia de que o Charlie Sheen tinha se drogado tanto que os produtores decidiram cancelar a sua série, a engraçadíssima Two And A Half Man. Vale dizer que Charlie Sheen é o comediante mais bem pago dos EUA ultimamente, ganhando cerca de 1 milhão de dólares por episódio de seu show, ou seja, um cara bem sucedido. As trajetórias de Amy e Charlie Sheen possuem paralelismos: abuso de drogas, relacionamentos violentos, barracos, fotos comprometedoras, e claro: exposição pública de suas mazelas. Charlie Sheen vai entrar no Guiness como a pessoa que conseguiu mais seguidores no twitter em 24h. Os posts completamente alucinados como I Still Winning e os retuítes de elogios ao comportamento errático do ator são a grande atração da timeline. Como alguém que bate da mulher, bate o carro quando dirige bebado, humilha colegas acha que “está ganhando”? E como que isso ao invés de gerar consternação gera ovação?

Estamos virando um público cada vez mais sádico, evoluindo e muito do espectador de reality show. Nós não estamos consumindo um produto da mídia de massa ou um personagem da cultura pop, estamos consumindo as pessoas, gente de verdade, no pior sentido que consumir pode ter: de drenar, extingüir. Queremos ver a destruição, ser espectadores in loco, em tempo real. Estamos mais preocupados com a próxima porrada que a Amy vai levar do ex-marido ou na próxima porrada que o Charlie Sheen vai dar na ex-mulher. Não é? Afinal é bem mais divertido do que ouvir a música dela ou se divertir com o artista que ele é.

Nem todo mundo pode ser artista. Ser artista depende de formação, referência, tempo para amadurecer, trabalho duro e inspiração, ter algo a dizer e dar esse algo pro mundo. Um olhar pro mundo. Já a dor é democrática, atinge até os imbecis. E deve ser a eles que, generosamente, Charlie Sheen e Amy Winehouse dedicam cada escândalo. Aproveitem, já que o martírio desses dois parece longe de ter um happy end.

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu sou o tipo de pessoa que está sempre se guardando para quando o carnaval chegar. Um dia depois que ele terminou, eu já estou esperando, um dia antes de começar meu peito já pula do peito de alegria.

É um troço que tá no sangue: minha tia Marinete acompanhava com fervor os desfiles do grupo especial, portelense ferrenha que era. Desfilava, torcia, e na manhã da apuração abria o JB já na página que vinha com a tabela para a gente preencher as notas. Algum jornal ainda faz isso? A mãe inventava a fantasia, a Tia-Madrinha Marisa costurava a dita cuja e meu pai me levava pro “coreto”. Moradora do subúrbio carioca, me acostumei a ter medo das gangues de bate-bolas, clóvis e gorilas. A minha alegria era ter um saco de serpentina e uma pistola de água, antes mesmo de aprender o gugu-dadá.

Tia Marinete no seu intensivão de folia para os sobrinhos.

O Carnaval para mim sempre foi uma alternativa; poder ser outra, viver outra vida, me transformar. O Carnaval é para mim um mometo sublime, onde magicamente caem barreiras sociais: não importa onde você mora, que lugar frequenta, que time que torce, que banda que toca: se eu estiver de Cleópatra e você de Faraó, temos algo em comum, um desejo, uma fantasia. Somos iguais.

O que uma bailarina, uma cleópatra e uma havaiana têm em comum?

Confesso que a bordo de substâncias pouco ortodoxas (como a famigerada caipirinha de querosene e caju) porém completamente carnavalescas, tive grandes experiências metafísicas espremida em algum bloco carioca,  porém posso dizer que meus maiores momentos como foliã foram caretíssimamente epifânicos e românticos. Talvez eu só estivesse super estimulada pelo calor senegalês mas eu acabo me encontrando sempre em um lugar incrível de dissolução, onde todos são reis e rainhas do carnaval e ao mesmo tempo são o nada e parte do todo. Parece complicado? Quem esteve numa barca do Se Melhorar Afunda ou no primeiro desfile do BoiTolo sabe exatamente do que eu estou falando. :)

Somos Todos e Somos um

Esse guarda-chuva de Joaninha da foto aí em cima me acompanha na folia desde 2006. A tal da Joaninha Caolha. Ela serve como abanador, protetor do sol, ponto de encontro móvel, bloco transversal, entre outras coisas. Ela é a cola que faz com que o baiano Alexandre Beanes venha se grudar na gente, que o curitibano Gil Brandão chegue mais, que a carioca Danielle Vidigal nos encontre, que a paulistana Flavia Penido me conheça, que meu primo Victor e sua namorida Carla possam se abrigar. Tantos amigos, tantas lembranças, tantos carnavais. Tanta gente diferente e bacana que veio que eu não sei nem mais contar. Tanta gente que vai vir, que eu mal posso esperar. E que venha o carnaval!

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Esse post é completamente dedicado aos amigos que fazem cada carnaval ser mais inesquecível que o outro: Gustavo Portela, Fernanda Montanholi, Rafael Eiras, Marina Santonieri, Luiza Pimenta. E também aos que estão chegando pela primeira vez como Paula Bertola, Tiaguinho e Caneco. Bem vindos!

Inimputáveis

Segundo o código penal brasileiro, existe uma pequena classe de cidadãos que são isentos de cumprimento de pena após cometerem um crime ou infração. São os chamados inimputáveis. Essas pessoas possuem doenças mentais severas que as impedem de compreender a natureza de crime, certo ou errado. Também são inimputáveis os menores de idade, ou em alguns casos a dependência patológica de alguma substância química.

O que separa um criminoso comum de um Inimputável é que o cidadão comum possui a capacidade de entender a natureza do seu crime, a extensão do dano causado ao outro e, a grosso modo,  sabe o que é um ato ilícito ou não é segundo a nossa lei. Todos nós aqui sabemos que matar, roubar ou estuprar é ilegal, por exemplo.

Esses são os inimputáveis de direito. Pela lei são assim. Mas infelizmente no Brasil existem os Inimputáveis de fato. Aqueles que mesmo sem se encaixar em nenhuma das descrições anteriores, e terem total controle de suas faculdades mentais e já possuírem idade suficiente para possuir consciência dos seus atos, permanecem sem prestar contas dos crimes que cometeram. E quem são essas pessoas? Gente que por algum rolar de dados do destino e da história está na condição de privilegiado. Geralmente privilégio quer dizer mais dinheiro, porém existe uma classe que desfruta de ainda mais benesses sociais, que são os que possuem mais dinheiro e também algum cargo de poder, os “doutores” dos poderes judiciário,  executivo e do legislativo.

Então, se a sua vida por um acaso, trombar tragicamente com um desses super-privilegiados, talvez não exista muito o que você possa fazer, como a empregada doméstica Lucimar, que, atropelada violentamente por uma procuradora da justiça do trabalho em janeiro deste ano, não procurou assistência jurídica ou justiça: intuiu que era inútil o embate, e que seu corpo e sua alma, já destroçados, podiam sair ainda piores deste combate.

E pasmem, segundo a nossa lei, Ana Luiza Fabero, sequer está de fato impune por um crime que cometeu. Objetivamente, a impunidade só é caracterizada depois que o crime é julgado e sua sentença proferida. Caso a sentença não seja cumprida, dá-se a impunidade. Mas o que fazer com o sentimento de impunidade que assola o nosso País? É uma ferida, algo mais profundo e subjetivo do que uma sentença num tribunal. É a certeza que qualquer brasileiro tem que, nessas terras tropicais, todos nós somos iguais perante a lei, porém alguns são mais iguais que os outros. É a certeza que tem o pai de classe média, que se pagar a propina pro policial, o filho atropelador escapará ileso,  contra a certeza que milhões de Lucimares possuem de que, para pessoas de sua classe a justiça é mais lenta e menos justa.

É dessa dicotomia, da justiça feita com mais tolerância para brancos e ricos e com crueldade para negros e pobres que a impunidade se retroalimenta. Pois a impunidade só é coberta por mais crimes: corrupção passiva e ativa e negociações escusas por baixo dos panos entre aqueles que possuem poder de decisão; e enquanto as cadeias lotam de pequenos traficantes, assaltantes e viciados, Ana Luiza Fabrero goza de uma licença médica, concedida especialmente para o seu caso. Licença médica que nenhuma Lucimar no País teve direito. Mesmo em tratamento, a empregada doméstica voltou ao trabalho. Mesmo tendo cometido um crime horrível pela sua natureza irresponsável e egóica Ana Luiza foi coberta por seus pares e aguarda o processo sem nem colocar os pés no trabalho. Lucimar é que está sendo punida pelo atropelamento que sofreu. Ela não é a primeira. E também não será a última.

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Esse post faz parte da blogagem coletiva pelo fim da impunidade, com o inestimável apoio das Blogueiras Feministas e das mulheres maravilhosas do LuluzinhaCamp.

Textos já publicados por Camilla Magalhães e Srta. Bia.

Blogagem coletiva pelo fim da impunidade

Muito se fala sobre o Brasil ser o país da corrupção, do jeitinho e da impunidade. As carteiradas do “sabe com quem você tá falando?” são tão corriqueiras quanto escândalos políticos, pagamento de propinas e arregos. A impunidade é a outra face dessa moeda perversa: na certeza de não ser pego, ou na certeza de tranformar a punição em pó através de mais corrupção, o autor do crime e da contravenção retroalimenta o sistema, transformando o problema em um ciclo praticamente impossível de ser interrompido, protegido por uma fortaleza de apatia e silêncio.

Porém contra esse mutismo generalizado, temos um remédio: botar a boca no trombone, se indignar. E foi a vontade de não ficar quieta com o caso de uma Procuradora do Trabalho que atropelou uma empregada doméstica no Rio de Janeiro (confira o caso clicando aqui), que fez com que eu compartilhasse essa mesma indignação com dois grupos de mulheres maravilhosas, do Luluzinha Camp e do Blogueiras Feministas que generosamente acolheram a idéia de uma blogagem coletiva. Dia 21/02 daremos espaço em nossos blogs, sites e páginas nas redes sociais para que possamos ter a oportunidade de não deixar barato, e de não compactuar com o sentimento de dissolução  e impotência que toma conta da gente quando descobrimos que um Pimenta Neves está em prisão domiciliar ou que a procuradora Ana Luiza Fabero está em “licença” depois de destruir vidas que tiverama ousadia de passar na sua frente.

É isso aí gente: Segunda feira, dia 21/02 – Blogagem Coletiva pelo fim a impunidade. Participe você também!

Eu ando morrendo muito. E você?

Notas e reflexões sobre somewhere

Digo notas e reflexões pois o filme de Sofia Coppola ainda não “assentou” na minha cabeça. A falta de unidade, a beleza esparsa, o silêncio. A sensação que eu tive é que a criadora que usa sempre os elementos da solidão e do deslocamento tão bem nos seus filmes resolveu esgarçar  esses temas até o limite, deixando a metáfora de lado e permitindo que, afinal, a solidão e o deslocamento dessem vazão a toda sua eloquência. Falassem por si só. Pois bem, vamos às tais notas e reflexões então.

*A partir desse ponto temos spoilers sobre a trama. Ou melhor, spoilers sobre a ausência de trama.*

- A cena inicial é bem emblemática do que está por vir. Uma ferrari potente faz um circuito circular, cada vez mais veloz. Na quarta ou quinta volta o protagonista, Johnny Marco, interpretado por Stephen Dorff, sai do carrão e encara o deserto. Ele não foi a lugar nenhum, nada aconteceu, ele está no mesmo lugar. “Não adianta correr, se você volta sempre ao mesmo lugar”, grita o plano.

A partir daí dois fatos na primeiro quarto do filme estabelecem todas as questões e desdobramentos do personagem – Não, ele não é um herói e o que eu chamo de “Não, não é tudo a mesma coisa.” A saber:

- Um entediado Johnny Marco assiste a um show de duas gêmeas extremamente jovens que se contorcem fazendo pole dance. Ironicamente, a coreografia é feita ao som da música My Hero, do Foo Fighters. Só que ele não é o herói de ninguém, é um beberrão, com uma péssima relação com as mulheres. Talvez o único lugar onde ele de fato pode ser um herói é atuando, mas nunca na vida real. As garotas balançam a bunda enquanto os versos There goes my hero / Watch him as he goes / There goes my hero / He’s ordinary ecoam pelo quarto. Johnny olha o show e entediado, adormece. As garotas terminam o número e saem discretamente para não acordar o astro.

- Johnny Marco é acordado pela chegada da filha, Cleo, interpretada por uma adorável Elle Fanning. Ele a leva em sua aula de patinação no gelo. A garota usa um collant azul e evolui no rinque enquanto o pai olha o celular com desinteresse. O mesmo desinteresse que ele demonstrou ter pelas strippers. Afinal, é tudo a mesma coisa: a juventude, alguém dançando, o cabelo louro, a coreografia marcada. Afinal, é tudo a mesma coisa? Depois de receber uma mensagem agressiva no celular Johnny se digna a olhar a garota. E percebe que não, não é a mesma coisa. Não é a mesma coisa administrar a atenção que você dá para sua filha e para todas as outras mulheres que aparecem no seu caminho, sejam agentes, strippers, ex amantes, ex mulher ou uma fã. Não dá pra ser a mesma coisa.

Daí pra frente são variações do mesmo tema, com aqueles enquadramentos bonitos-estranhos da diretora, como a cena da piscina no hotel italiano no quesito não, não é a mesma coisa ou a premiação italiana constrangedora no quesito não, ele não é um herói. Afinal, nada é infalível nessa vida. Nesse filme, tudo é frágil e tudo quebra – até uma Ferrari.

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Os filmes da Sofia Coppola também são pródigos em tirar sarro do estilo de vida Hollywoodiano, mesmo que seja de leve. As festas exageradas em Maria Antonieta, ou a personagem de Anna Faris, uma estrela bulímica e retardada que muitos dizem ter sido inspirada em Cameron Diaz, em Encontros e Desencontros. Em Somewhere, a piada fica por conta da crise existencial clichê de Johnny Marco, que liga para a ex mulher chorando por perceber que sua vida é vazia e que ele é um “nada”. Do outro lado da linha a ex mulher responde: Por que você não tenta trabalho voluntário, or something… O something exalando a impaciência tanto com a crise do ex marido quanto com os atores que tentam capitalizar em cima desse tipo de atitude.

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Mais algumas elucubrações:

Deve ter sido bem sofrido pra diretora ter que ficar enfurnada no Chateau Marmont enquanto o seu pai filmava O Selvagem da Motocicleta. Mesmo que o sonho de muitas garotas seja exatamente estar no Chateau Marmont, hotel onde os integrantes do Led Zeppelin invadiram o lobby montados em suas Harley Davidsons, onde o John Belushi morreu de overdose, onde Fitzgerald teve um ataque do coração, onde a Judy Garland dava aquelas festas glamurosas, e onde, mais recentemente, Sean Peann encantou Scarlett Johansson, não é um sonho ver seu pai efetivamente fazendo história enquanto você balança os pés na água da piscina.

O fato é que temos o melhor momento constrangedor do cinema por conta da culpa que o Coppolão deve sentir, pois só isso justifica dar aquele papel tosco para a jovem Sofia fazer aquele papelão em O Poderoso Chefão III. E  tentar apagar esse passado inglório e enterrar de vez a garotinha do papai é um belo motor para Sofia Coppola ter se tornado diretora. Espero que com Somewhere ela tenha de vez se livrado de todo esse complexo e nos traga algo de realmente novo no seu próximo filme e nos confirme mais uma vez a grande roteirista e diretora que ela é.

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Fiquem com a versão linda de You Only Live Once, do Strokes que virou  I’ll Try Anything Once quando entrou na trilha de Somewhere:

Black Swan – Mais do mesmo embalado para presente

O duelo entre “eu sou” e “quero ser” é um dos grandes temas do cinema, a tão falada crise do sujeito. A potência da imagem e seu estatus de realidade estão levando os cineastas a testarem seus limites e cada vez mais abordarem temas como o sonho, o delírio, a alucinação para testar a validade dessas mesmas imagens. Da junção desses dois fatores nasceram filmes tão díspares quanto Ilha do Medo e A Origem e a agora Black Swan.

Abordar esses grandes temas exige uma certa dose de ousadia. Encontrar um roteiro que fale sobre essas questões e uma forma que se cole a ele de forma satisfatória, um desafio. E Darren Aronofsky teve essa coragem, porém o resultado final é apenas parcialmente bem sucedido, e mesmo nas suas glórias soa uma pouco infantil. Como se o diretor tivesse pensado nisso tudo, mas tivesse embalado num papel de presente bonito, mas com o durex soltando nas quinas. O roteiro é de uma fragilidade tão surpreendente que eu achei que estava enganada ao ouvir o diálogo da protagonista Nina Sawyer com a sua mãe frustrada e over-protetora, logo nos primeiros dez minutos do filme:

Nina

- Ele me prometeu mais destaque nessa temporada. (Ele = o diretor da Compania de Balé interpretado, por Vincent Cassel)

Mãe

- É o caminho natural, afinal você é a bailarina mais dedicada da compania.

Para que esse diálogo existe?  Para que diabos você precisa de um diálogo para me dizer que ela é dedicada e insegura? Que ela não é mais “talentosa”, ela é a mais “esforçada”? Talvez Darren tenha optado por essa saída pois, apesar da Natalie Portman estar sendo cotada para ganhar o Oscar, a personagem é tão fragilmente construída que alguém tem que contar para o espectador quem ela é, ou alguém pode piscar e perder essa parte. As imagens que deveriam contar essa história são tão destituídas de significado que então é melhor colocar na boca de um personagem e seguir em frente, sem se preocupar mais com isso. Com quem a protagonista é, de fato.

E isso se repete o filme todo. A imagem nos conta a sua história de forma tão literal que se Darren Aronofsky tivesse forçado um pouco mais a barra poderia ser um filme lindamente surrealista. Mas não;  Nina precisa encontrar o Cisne Negro e então se envolve com uma bailarina fisicamente parecida com ela, mas com o comportamento oposto; Nina entra em conflito consigo mesma, então ela LITERALMENTE se machuca, luta e se fere. Nina precisa liberar energia sexual e se libertar da repressão materna, então ela LITERALMENTE se masturba na frente da mãe. E assim o filme acontece o tempo todo, sendo construído através de ambiguidades e duplicidades que se equivalem tão perfeitamente que sequer podemos nos estreitar com a protagonista no nosso papel de espectador. Como se as alucinações de Nina fossem um espelho tão cristalino da realidade que ela não fosse capaz de profundidade ou subjetividade e nós, o público, ficássemos de castigo do lado de fora, sem direito também ao delírio.

Dito isso, também preciso dizer que Black Swan não é um filme ruim. É um filme bonito, com figurinos de sonho e fotografia expressiva. Mas dizer que é a melhor coisa que  o cinema americano produziu desde a década de 70, como a crítica vêm gritando essa semana, é um enorme, enorme exagero.

Sobre a irrelevância ou Who Cares?

Alô você, amigo que se preocupa pois alguém postou uma foto sua, um pouco íntima, na internet. Bom dia pra você que tá morrendo de vergonha  depois que sua performance de peacock naquela festa foi parar no youtube. Um oi para você, cara leitora que morre de medo de alguma coisa sua “vazar” no facebook! Eu trago uma boa notícia: ninguém se importa.

Muito se diz sobre o cuidado que supostamente temos que ter ao postarmos nossas vidas a internet, ao darmos nossas opiniões. Um futuro namorado, um futuro emprego, a sua avó: qualquer um pode ver o que não deve. Mas cada vez mais essa possibilidade fica remota. A quantidade de bobagem é tão avassaladora que fica praticamente impossível escandalizar alguém. Cada um de nós, dia a pós dia faz questão de deixar os limites mais frouxos sobre o que devemos revelar. Do que podemos revelar. Do que é aceitável dizer. Uma dor de cabeça, uma frustração, uma tpm. Uma bebedeira, um chefe chato, um vizinho e sua furadeira. A novela, sua mãe, o pé na bunda. Tá tudo no mesmo saco, minha gente, sendo empurrado pra baixo sem dó nem piedade nas frenéticas timelines da vida.

A internet é incrível para disseminação de informação, para encontrarmos nossos pares, para potencializar projetos, para encontrar os amigos. A internet é linda. Mas se tem uma coisa que todos esses anos online nos deram foi uma certa insensibilidade. E não só insensibilidade para fofoca e para maledicência. Estamos dormentes para qualquer coisa, principalmente as coisas que importam de fato.

As notícias, piadas, sacanagens e furos se sobrepõe uns aos outros de forma vertiginosa. Quando alguém apertar o “curtir” naquela sua foto vergonhosa, certamente um travesti estará mastigando uma calcinha no BBB ou um pai de família vai ter matado oito filhos e isso terá virado um funk mixado por um retardado no youtube. Então, meu caro, não se dê tanta importância. Nem a revolução no Egito tem importância nesse contexto.

Muito se fala da relevância na internet. Mas, raras exceções, estamos virando comentaristas do nada, um Seinfield sem graça e virtual, onde somente a irrelevância importa. É uma nova era. A da sobreposição de irrelevâncias. Então, se a notícia só serve para você dizer o que acha dela, só serve para piada que você vai fazer com os amigos no twitter ou para ser print daquela camiseta descolada, esqueça! A sua bebedeira, a sua nudez, a sua ambiguidade não são páreo para criancinhas coreanas tocando a trilha de Mario Bros com copos de cristal ou para fotos da Demi Moore pelada na casa do Luciano Huck.

A verdade dolorosa é que por mais vexatória que seja a situação, bons tempos aqueles em que uma suruba em Ribeirão Preto causava comoção. Hoje em dia famélicos e mutiladas não causam um décimo do choque. São só uma janela, algo para você comentar, conhecer, não ficar por fora, criar seu meme, dar sua opinião em 140 caracteres, ser curtido no facebook e postar o .jpeg engraçadinho com uma sacada genial sobre o assunto.

Então, respire aliviado, e espere os batimentos voltarem ao normal: a não ser que você faça o assassinato da sua mãe ao vivo na twitcam com rituais satânicos, aquele seu deslize vai passar batido. Aproveite!

Post Desespero: 2011 começou

Dia primeiro de fevereiro e eu percebo que todos os meus projetos estão atrasados. Dá pra ver, que minha última postagem foi falando do doc e eu nem vim aqui dar um oi e contar como as coisas estão se encaminhando. Shame on me.

Tenho um conto para entregar pro livro coletivo do Calenza, o espelho do programa do GNT, o roteiro do curta do Gabriel, e eu, Carolinamente, me enrolei pra cacete. Drama Queen: já comecei tudo, mas agora os prazos estão se afunilando loucamente.

O fato é que agora é deditos à obra e muita paciência e corridas para limpar a mente e deixar a criatividade fluir.

Torçam por mim!

Eu sempre quis dizer – Documentário

Como a vida é dura e pedra que não rola cria limo, estou aqui para contar para vocês o meu mais recente projeto, o documentário Eu Sempre Quis Dizer.

É um filme pequeno, independente, quase artesanal que estou produzindo com a Musique, produtora da minha grande amiga Livia Perini.

O filme é sobre todas  aquelas coisas que deixamos de dizer e que vez por outra voltam sem aviso. É um desabafo coletivo, um botar pra fora, esclarecer, colocar os pingos nos “is” e finalmente resolver a questão.

Um detalhe: não necessariamente as histórias devem ser tristes, trágicas. Uma das nossas pré selecionadas tem uma história engraçada de como ela queria falar com o rapaz que ela encontarava todo dia no metrô durante um ano. Como eles tinham a ver e chamá-lo pra sair, e como ela tinha certeza de que ele podia ser o amor da vida dela. Mas ela se mudou, passou a só pegar a linha verde e nunca mais se viram. Ela até fez um desenho dele pra câmera, afinal, quem sabe ele não vê o filme e eles se encontram novamente? :)

Clique aqui para acessar o formulário do casting. Pode repassar pra quem vcs quiserem e quem vocês acham que tem a ver. Não preciso nem falar sobre confidenciabilidade, né? Todo o material gerado nesse casting (emails, imagens, textos) será confidencial. Apenas as pessoas selecionadas, que toparem participar do filme receberão a autorização de imagem e terão seus depoimentos recolhidos por mim e pela Livia no período de gravações.

Importante: estamos chamando apenas pessoas de SP e RJ, ok?

Melville, um carioca.

Um amigo uma vez me disse que ao ler Moby Dick, teve a sensação de que a história contada ali em seiscentas e tantas páginas poderia facilmente ser contada em duzentas, se muito. Algo como “Rapaz melancólico se aventura pelo mar e conhece Ahab, um capitão que busca vingança contra a baleia Moby Dick, uma cachalote enfurecida que lhe comeu uma perna.”.

Tive o prazer de discordar, afinal, Moby Dick não seria Moby Dick se Melville não tivesse escolhido dentre todas as palavras, as mais bonitas para contar a sua história. Cada escolha de frase, cada quebra de parágrafo é uma aula de narrativa, de como levar o leitor por uma viagem particular dentro de si mesmo, só que através de signos e significados de um mundo muito particular, de baleeiros, náufragos e criaturas oceânicas. Aquela clássica história de fale para sua aldeia, fale para o mundo.

Folheando um dia desses o livro, não resisti e li o primeiro parágrafo. Folgo em dizer que qualquer ser humano desterrado de sua casa próxima ao mar (eu inclusa) já sentiu isso, nem que pelo menos uma vez:

“Trate-me por Ishmael. Há alguns anos – não importa quantos ao certo – tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e conhecer o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão pronfunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas – então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar. Esse é o meu substituto para a arma e para as balas.”

E foi assim, numa tarde em São Paulo, que descobri que o americano Herman Melville era carioca.

Facebook e o afeto

Marcela trabalha durante a madrugada. Todo dia às dez da noite ela coloca sua roupa formal, pega o carro e encara a noite de São Paulo. Mulher de coragem a Marcela. Nos fins de semana ou ela fica com o filho, o Gabriel, ou o pai do menino vem buscá-lo. Gabriel é corinthiano e de vez em quando gosta de bater uma bolinha no quintal com o tio, um sujeito animado e boca suja que não deve morar na cidade: só aparece nos feriados prolongados. Quando sozinha em casa, Marcela conversa longamente com a mãe ao telefone.

Eu não conheço a Marcela, por assim dizer. Nunca fomos apresentadas, mas ela é a minha vizinha de muro. Sei que o filho dela é Gabriel pois ouço ela conversando com o menino. Sei que ela trabalha à noite e que usa roupas formais pois geralmente na hora que ela sai, estou fumando no terraço e a vejo se espremer no estreito corredor que leva à garagem, vestida de blazer e camisa social. Também ouço seus sapatos de saltos grossos batendo no piso frio. Essa família nunca vê jogos de futebol em casa, mas eles têm um papagaio que sabe assoviar o hino do corinthians, logo…

Consequência da minha bisbilhotice ou do crescimento urbano desordenado que colou as casas umas nas outras, o fato é que Marcela faz parte da minha rotina como dar comida ao cão. Sem refletir, apenas convivendo com poucas imagens e com breves declarações, eu chuto que Marcela é solteira e prefere ficar assim. O ex vem ver o filho. São sempre cordiais um com o outro. Mas Marcela não recebe muitas visitas e, bem, trabalhar durante a madrugada deve ser um certo empecilho para o desenvolvimento de relações amorosas.

Eu vou tateando a existência dessa mulher com as informações não solicitadas sobre a sua vida que invadem a minha própria casa e a minha própria intimidade. Qual a relevância dessa quantidade de fatos, de fragmentos de vida, para mim? Nenhuma. De fato, eu preferiria não saber de tudo isso. Ou melhor eu não sei se eu preferiria não saber ou se a quantidade de espectro da vida de Marcela que chega até mim é tão grande e tão constante que, bolas, não faz mais diferença. É como um burburinho onipresente.

Por uma dessas coincidências da vida, minha relação (?) com essa vizinha é extremamente análoga com a relação que estabelecemos em nossas vidas virtuais. Estamos filtrando pouco, estamos nos expondo demais e sem consciência dessa exposição, como se cada detalhe comezinho da nossa vida fosse relevante o suficiente para ser publicado. Estamos usando as redes sociais para pensar alto qualquer banalidade, esquecendo o incalculável alcance de qualquer palavra, do perigo da sua desvirtuação de qualquer frase, da descontextualização de qualquer parágrafo.

Dia desses fiz um comentário polêmico sobre sexo no facebook. Tomei uma ou duas bordoadas interessantes no episódio, que me fizeram pensar um pouco sobre o uso das mensagens privadas. Afinal, 372 pessoas que estão conectadas a mim no facebook são extremamente heterogêneas. Colegas de faculdade que eu nunca mais vi, ex chefes, amigos, parentes, uma longa lista de gente que talvez preferisse não saber da minha opinião sobre o assunto. Ou que, tanto faz, afinal outra lista longa do facebook é a de declarações escabrosas nas páginas pessoais. Eu construí uma ponte desnecessária entre a minha intimidade e o público. Os realmente chegados sabiam ou intuiam essa postura. Os afastados não teriam como ou por que saber.

Outra ponte desnecessária que invariavelmente nos esforçamos para levantar é a ponte do tempo. Dia desses uma amiga reclamava, chocada, do ex- namoradinho de adolescência que resolveu lavar a roupa suja do término 20 anos depois. Entre surpresa e indignada ela perguntou: ele sempre teve o meu email e nunca tocou nesse assunto. Por que hoje isso é tão importante? Arrisquei que o facebook dava essa ilusão de proximidade. Dá muito mais trabalho colocar uma mágoa de duas dácadas no papel quando você não sabe como a antiga namorada envelheceu; mas a foto do perfil denuncia que ela continua bela. A poesia que postada na biografia dá a ele a ilusão de que de ainda a conhecer. O comentário sobre o trânsito insuportável que ela deixou no mural prova que ela existe. Ela está ao alcance deste homem, está disponível para ouvir o quanto aquele fora de quando vocês estavam no segundo grau marcou sua vida, sua relação com as mulheres e com o mundo. O único problema é que isso não é problema dela. É o tipo de confissão egoísta que não serve para absolutamente nada.

E a gente segue assim, costurando a nossa intimidade a diversas solidões, todas elas espalhadas pela página de comentários; continuamos ignorando que atrás dessas páginas estão outros desejando contato, como nós estamos; continuamos jogando ao mar essas garrafas de mensagens inúteis, ávidos para que alguém em algum momento as recolha, as ressignifique, as tire do status de banalidade, enxergue através e venha nos resgatar.

Talvez seja o momento de mudarmos o conteúdo dessas garrafas, de inverter a lógica, de aumentar o espectro de eclipse e sombra ao invés de usar uma lupa e um refletor sobre cada agrura cotidiana. E assim talvez, também resgatemos um pouco do mistério e da poesia que existe em cada relação de afeto.

Cinco músicas para o Rio de Janeiro

Não vou comentar sobre as invasões no Rio de Janeiro. Sobre a importância da legalização das drogas. Não farei poesia com tragédia, tampouco vou comentar sobre a política de segurança pública carioca. Vou é fazer uma lista de músicas sobre o Rio de Janeiro. Tenho dito.

5 – O Carioca – Grupo Molejo

O Grupo Molejo sempre é citado como epítome da cafonice dos anos 90, mas essa música tem uma letra completamente vintage, sarrista, que malandreia o “eu carioca”.  A construção do personagem é tão completa que você visualiza esse cidadão que eles estão descrevendo.

“O carioca é aquele que sai na escola de samba
Lá na avenida ele é um bamba
O carioca é aquele que pelo Rio se inflama
Arpoador, Copacabana
O carioca é aquele que vive de gozação
Mas ama seus companheiros, pois todos são seus irmãos.”

4 – Samba do Avião – Tom Jobim

Qualquer que desceu de avião no Rio já pensou duas coisas: o cagaço de cair na Baía de Guanabara e o Samba do Avião.

3 – Enederço dos Bailes – MC Júnior e Leonardo

Só para lembrar que o Rio não é só feito de Ipanema e Leblon. Mc Júnior e Leonardo mapeiam os bailes funk do Rio de Janeiro e avisam que no subúrbio também se diverte.

” Lá na Tijuca tem uma baile que é sem bagunça / A galera fica maluca/ Lá no morro do Borel”

2 – Carioca – Chico Buarque

Nada melhor que um paulistano que escolheu ser carioca para fazer um relato tão desapaixonado e ao mesmo tempo tão poético sobre a cidade.

“Cidade maravilhosa
És minha
O poente na espinha
Das tuas montanhas
Quase arromba a retina
De quem vê”

1 – Aquele Abraço – Gilberto Gil

Que continua lindo, sabemos. Agora estamos lutando para que continue “sendo”.

E para quem quer ouvir mais música com carioca’s issues, é só clicar nos títulos abaixo:

Ela é Carioca

Do Leme ao Pontal

Rio 40º

Cidade Maravilhosa

Reflexão sobre a amizade

Trecho do conto A Cautionary Tale, de Deborah Eisenberg.

“Até agora, Paty nunca se dera conta que o tempo é tão adesivo quanto o amor, e que quanto mais tempo você passa com alguém, mais é provável que se encontre com uma espécie de coisa permanente com que lidar, a que as pessoas chamam despreocupadamente como “amizade”, como se isso esgotasse o assunto, quando a verdade é que mesmo que “seu amigo” faça alguma coisa irritante, ou que você e “seu amigo” concluam que vocês se detestam, ou que “seu amigo” vá embora e vocês percam o endereço um do outro, você ainda tem uma amizade, e embora ela possa mudar de forma, parecer diferente sob diferentes luzes, tornar-se um embaraço, um estorvo, um sofrimento, ela não pode simplesmente deixar de ter existido, não importa o quão profundamente se enterre no passado, de modo que tentativas de negá-la ou destruí-la, não só constituirão traições da amizade, mas de maneira mais prática estão fadadas a ser infrutíferas, causando dano apenas para os seres humanos envolvidos e não para aquela selva viscosa (amizade) em que esses seres humanos se enredaram, de modo que se em algum momento no futuro você for querer não ter sido amigo de uma pessoa em particular, ou se for querer não ter tido a amizade particular que você e essa pessoa podem ter um com o outro, então não se torne amigo dessa pessoa de maneira alguma, não converse com ela, não chegue perto dela, porque assim que você começa a ver alguma coisa do ponto de vista dessa pessoa (o que acontecerá inevitavelmente assim que você se colocar perto dela) as bases para uma compreensão mútua certamente vão escorregar sob os seus pés.”

E você pensando que terminar um namoro era difícil.

O Meu Meu Paredro

Gil Brandão foi uma das melhores pessoas que a internet me trouxe. E agora ele ainda fez um post pra mim, que deixou o coração peludo todo embaraçado.

Para ler, clique aqui.

Quem disse?

Quem disse que é preciso bom senso, higiene e bom gosto para viver um amor perfeito?

Desde quando é necessário não surtar e falar baixo? Desde quando a ditadura da sanidade mental fixou em cartazes que o amor está reservado apenas aos bem resolvidos, aos “de bem com a vida”, aos gente-fina, aos corretamente vestidos, que não bebem além da conta e que são cheirosinhos e monogâmicos?

Acho que eu perdi alguma coisa… e quando fui prestar atenção o lugar comum tinha tomado conta do amor, só pode. Eu achei que a síndrome da perfeição estava confinada nas clínicas de estética, nas dietas, nas academias de ginástica. Mas ao que parece, o modelo da perfeição foi vendida para o amor também. O amor agora só é bom e só vale se for perfeitinho, com barriga tanquinho, sem rugas, sem marcas do tempo, sem gordura adicional.

O casal deve se conhecer em condições ideais. Ela não pode escorregar no visual. Nem falar palavrão. Nem suar. Ele deve ser cativante e seguro. Ter o cabelo impecável, mas não usar gel. Saber escolher o vinho, mas não parecer panaca. Tem que entender de cinema, mas não parecer intelectualizado demais. Na medida. Depois daí eles se encontram algumas vezes e sem grandes percalços começam a namorar o namoro mais entediante da história da sociedade ocidental.

Estamos todos abrindo mão da imprevisibilidade. Mas abrindo mão em nome do que?

Lembro muito de um filme que eu adoro, o francês O Gosto dos Outros. Nele, um empresário bronco, com uma vida conjugal infeliz, se apaixona por sua ex- professora de inglês, uma atriz culta com crise de meia idade. Ela sempre fica extremanente desconfortável com os encontros que tem com ele, tão simplório, careca e cafona. Mas acontece algo mais interessante entre os dois: o desconhecido.

Amor assim, com A maiúsculo é bom até quando a gente é sujo, até quando a nossa cabeça tá meio fodida, até quando a gente é meio obessesivo. Posso falar? Gente burra ama. Canalha ama, casa, tem filho. Gente feia, então, ama pra cacete.  As mulheres desequilibradas, as levemente alcoólatras, amam muitíssimo bem. Os rapazes que usam papete sabem amar, os que gostam dos filmes do Vin Diesel também, vai lá perguntar para eles só.

Existe amor mais bonito que o de Barry Egan (Adam Sandler) por Lena Leonard (Emily Watson) no filme Embriagado de Amor? Ele, completamente desfuncional, falido, descontrolado e pra completar, perseguido pela máfia depois que resolveu não pagar uma sessão de tele-sexo. Ela, uma moça tão gentil que declara querer chupar os globos oculares do amado como balas e depois dar um soco nas bolas do perfeito pretendente. Eles não são bonitos e alegres. Eles são complexos e estranhos. Eles foram feitos um para o outro e para isso, pasmem!, não precisam usar sapatos combinando com os cintos e nem saber usar o talher de frutos do mar.

É muito importante estar preparado para quando o amor acontecer. Talvez você esteja usando uma calcinha bege furada. Talvez a sua cueca esteja sem elástico. Talvez você tenha esquecido de passar o desodorante. Mas se for amor mesmo, o essencial é saber reconhecê-lo. Mesmo que não esteja embalado para presente.

Nobody puts Baby in a corner

Uma lista breve de coisas que me fazem chorar.

Sou cafona e isso não é um mise en scène para ganhar um elogio. Sou cafona e isso é um fato. Pode ser a conjunção astral, pode ser a criação no subúrbio, pode ser alguma influência intra uterina, não sei. Mas o que acontece é que como toda boa cafona, eu choro por qualquer coisa, às vezes discreta, às vezes copiosamente, aos solucinhos, fazendo com que alguém faça um muxoxo de desagrado quando isso acontece em uma sala de cinema.

O problema é que a cafonice é superlativa. Nos emocionamos pois vemos beleza e nobreza nas coisas mais simplórias e vulgares. Nós cafonas não temos noção de tamanho, fatalmente invadindo o espaço alheio com gargalhadas acachapantes e verdades bêbadas sobre a vida, gritadas nos bares. Quando isso se manifesta numa vestimenta, o resultado é trágico e cômico, os boás e os brincos de pérolas falsas brilhando na noite. Quando isso se manifesta no paladar, o cafona pede uma picanha do rechaud, espalhando o cheiro de carne nos quatro cantos do planeta. Mas o verdadeiro cafona, o cafonalha de coração, vai às lágrimas. Ir às lágrimas é a manifestação mais pura e honesta da cafonice. O cafona chora quando ganha um presente por serviços prestados. O cafona chora quando fica bebado, diz que ama. O verdadeiro cafona chora em casamentos e se você não chora, não pode entrar nesse clube, não senhor.

Em homenagem a cafonice atávica que me move, faço uma pequena lista de momentos em que eu chorei e meu pequeno coração peludo transbordou sem nenhuma amarra, bom gosto, ou bom senso.

5- É TETRA!

Todo mundo odeia o Galvão Bueno. Mas ele é cafona e nós cafonas nos amamos. Até hoje quando vejo o VT do Galvão Bueno na final da Copa de 94, meus olhos ficam marejados. No dia as lagriminhas pularam dos meus olhos de 11 anos de idade. Quem é que manda no futebol do mundo????

4 – ENCONTROS E DESENCONTROS

Eu vi o filme da Sofia Coppola pela primeira vez na abertura do Festival do Rio em 2003. Na época eu tinha conseguido meu primeiro trampo em cinema e odiava. Só que né? Foi o que eu tinha escolhido para fazer. Aí o Bill Murray diz que é ator e pergunta para Scarlett Johansson ” And, Are You do?” E ela responde “I’m not shure, yet, actually” Pronto. Chorei até cair a pestana. Toda vez que esse filme passa na tv à cabo, mesmo dublado no TNT, dá um mini-nó-na-garganta.

3 – IN BETWEEN DAYS

Pode, Arnaldo, chorar com uma música? Terminei um namoro tenso em 2008. Saí de casa, coloquei o Ipod (que ele tinha me dado) nas orelhas e tava tocando In Between Days. Nunca chorei tanto na vida ouvindo uma música. E lógico, começou a chover (Damn it!). Um dia cantei aos berros essa música em um bar de karaoquê de travestis no Rio e passou. Nunca mais chorei com ela, mas fica no top pela quantidade de água que saiu do meu corpo naquele dia.

2 – PERGUNTE AO PÓ E LAVOURA ARCAICA

Os livros, não os filmes. Em Pergunte ao Pó, do John Fante, chorei, mais uma vez por crise de identidade. Arturo Bandini, o protagonista, faz uma espécie de poema em linha reta que culmina, com “Eu, Arturo Bandini, nem peixe, nem ave, nem um bom arenque vermelho”.  Fodeu. Demorei um século até desembaçar a retina e continuar o livro. Lavoura Arcaica do Raduam Nassar, entra na lista pois foi o livro que me fez chorar em menos tempo, pelo simples fato de ser muito bonito para eu aguentar sem chorar. Foi na primeira página.

Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois dentre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;”

Como o cara conseguiu escrever isso?

1 – DIRTY DANCING

Dirty Dancing foi a minha primeira fantasia romântica. Mentira, minha primeira fantasia romântica foi o Alladin da Disney (sempre me amarrei nos mulambos, desde pequena, como pode-se perceber). Existem dois motivos pelos quais eu choro na cena final de Dirty Dancing. O primeiro é que eu danço muito mal. Chega a ser comovente o meu esforço, e eu realmente me esforço, pois gosto de dançar. Eu acho lindo gente que consegue dançar, já chorei vendo um espetáculo da Pina Bausch, chorei de inveja e de pura vontade de um dia conseguir fazer aquilo. O segundo motivo é por que o Patrick Swaize fala pra Jennifer Grey: Nobody puts Baby in a corner. Cara, quase tive um treco quando ouvi isso, é a síntese do herói moderno. “Ninguém coloca minha mina pra escanteio, mano!” Eu amo muito sempre, cenas de coreografia em filmes, e Time Of My Life consegue sempre me deixar emocionada.

Cena Final de Dirty Dancing, Ritmo Quente

É assim que as coisas são

Encontro de garotas. Restaurante coreano primeiro, depois umas cervejinhas e umas vodquitas em casa. Depois daquele papo de praxe de “como vai, o que tá fazendo, quanto tempo não te vejo”, o álcool vai entrando, a verdade vai saindo e começam umas reclamações tímidas sobre a vida. No início uma bem humorada observação sobre quanto tempo dura uma ressaca, agora que não somos mais adolescentes – antes, dizia uma, eu virava 22 tequilas e acordava pulando da cama para malhar e hoje tomo duas cervejas e fico uma semana de estômago embrulhado – e nisso todas nós ríamos e concordávamos.

Só que o lance começou a ficar muito esquisito quando eu percebi que todas essas observações engraçadas, espirituosas tinham um único alvo: a idade. Era sempre a história do antes e depois. Antes eu não tinha ressaca, antes eu era mais magra, antes eu não tinha tanta preocupação, antes eu trepava mais, antes eu tinha mais disposição, antes eu era mais feliz. Hoje os caras só querem garotinhas (oi?), minha bunda caiu, eu ainda não me arranjei na profissão, meu salário ainda é uma merda, eu vivo de aluguel.

Fiquei um pouco espantada. Estamos todas às vésperas dos 30. Eu faço 28 anos em dezembro. As outras fazem 29 ou 30 também no fim desse ano. Retruquei que eu não era mais feliz 5 ou 10 anos atrás. Como comparar uma garota de 18 anos com uma muher de 28? Eu não admito que me enfiem goela abaixo que uma mulher de 28 anos é uma velha. Eu não admito que me digam que uma jovem de 30 anos tenha que ser sarada e bem resolvida, casada e com um salário milionário para ser feliz. Quem inventou isso?

Eu sei o que o assunto é velho. Mas eu fico impressionada com as minhas amigas, todas tão lindas, inteligentes e perfeitamente bem sucedidas para a idade, arrancando os cabelos como se a vida fosse muito injusta com elas. E não é questão de uma insatisafação natural, daquela que nos desafia, nos leva a tentar, quebrar a cara, acertar. É uma sensação de fracasso iminente, como se tudo estivesse desmoronando. Como se a vida que saísse do script automaticamente te tornasse uma pária da terra prometida, uma marginal da euforia coletiva. Eu tenho minhas vaidades, tenho minhas questões pessoais mal resolvidas, mas minha vida também tem um monte de gente legal, de coisas divertidas, de apaziguamentos e momentinhos eufóricos. É necessário mesmo, que chegando aos 30 tudo tenha que estar nos devidos lugares que planejamos aos 20?

Renata, é assim que as coisas funcionam, me disse a amiga advogada, jogando o cabelo lourão pra trás. Particularmente, eu não acredito nisso,  nesse marco dos 30 anos, respondi. Eu simplesmente não acredito que somos obrigadas a comprar tudo que está à venda a respeito de sucesso e satisfação pessoal. Eu não quero minha bunda intacta em um vidro de formol. Eu não quero viver em função do macho-perfeito nessa vibe frenética Carrie Bradshaw. Eu acho a Carrie Bradshaw uma otária, de qualquer maneira, prefiro a Angela, de Uma Mulher é Uma Mulher. Eu não quero casar com o Luciano Huck e ter filhos roboticamente louros. Eu não quero viver em função de uma carreira que consome todos os meus neurônios e me impeça de ter vida social ou de fazer minha yoguinha só para comprar aquele carro (tão lindinho!), que apareceu na tv. Prefiro gastar meu dinheiro em outras coisas, gastar meu tempo com as pessoas que amo, de preferência bebendo, fumando e falando de filmes e livros. Dá pra ser?

Cuidado, menina, assim você acaba não casando… Cuidado menina, assim você acaba não comprando a casa própria… Cuidado menina, (horror dos horrores!) assim você acaba não tendo filho…

Cuidado gente. Assim eu posso continuar eu. Que perigo.

Nós e Eles

Existe hoje no Brasil, no burburinho pós eleitoral, um discurso e uma animosidade que divide o Brasil entre “nós” e “eles”. Tanto eleitores de Dilma e Serra, independente da classe social a qual pertencem empunham suas bandeiras como se quem tivesse elegido a Dilma fossem os “pobres”, “os fudidos”, os “sem escolaridade”, os “ganhadores de vale e bolsa família”, os “nordestinos” e os eleitores do derrotado José Serra tivessem “maior poder aquisitivo”, “mais escolaridade”, “mais cultura”, só fossem oriundos do “sul e do sudeste”.

Para o bem e para o mal a análise é completamente distorcida. Sem o Nordeste, Dilma ainda ganhara por 12 milhões de votos. Roraima, um dos Estados mais pobres do Brasil, Serra ganhou de lavada, assim como no Acre. E agora não existe mais divisão entre quem votou em Serra em e Dilma. Existe sim uma divisão entre quem quer fazer um Brasil melhor e quem quer só reclamar de quatro em quatro anos em época de eleição.

Um conhecido no Facebook mandou na lata: bem feito pra esse povo burro que não sabe votar e elegeu “essa mulher”. Engraçado como essa frase subentende que o cara que escreveu acredita que qualquer brasileiro, principalmente os que votaram em Dilma, são burros. Pior, a pessoa se exclui tanto do que é o povo brasileiro que se exime da responsabilidade de construir o Brasil, como se as consequências da eleição só valessem para o tal “povo burro” e não para ele que pertence a uma elite “imune”. No mesmo nível de sandice, uma grande amiga que votou em Dilma estava em delírio enchendo o saco de todo mundo que votou no Serra chamando de “burguês” e mandando todo mundo ir morar em Miami. Como se o fato de alguém ter votado no Serra fizesse a pessoa menos brasileira e sem direito a viver no Brasil ou fazer oposição.

E o que isso está gerando? Manisfestacões de xenofobia, preconceito, reações agressivas. Não somos “nós” contra “eles”. Somos todos, juntos, cumprindo cada um o papel cívico que nós escolhemos. Os eleitores de Dilma de serem propositivos e ajudar a fazer um governo ainda melhor do que o de Lula, com avanços sociais e distribuição de renda e quem votou em Serra construir uma oposição limpa, digna, fiscalizadora. Simples assim.

Sei que é difícil, ainda mais que os ânimos estão acirrados nesse momento. Mas só assim para fazermos um Brasil digno de nossos sonhos. E acredite, ele está próximo, ao alcance do nosso bom senso, não do nosso descontrole.

Tolerância, a armadilha

Tolerância é a palavra da moda entre os amigos da democracia e da igualdade. Devemos praticar a tolerância com aqueles que são diferentes, aqueles que não se encaixam no padrão.

Vou tentar aqui desconstruir o vocabulário politicamente correto. Pra mim, tolerância sempre foi uma palavra um tanto quanto ardilosa. Tolerar segundo o dicionário é consentir, deixar passar e principalmente suportar. Isso significa que existe alguém com o poder de deixar o outro atravessar, consentir o direito de estar na mesma mesa, na mesma roda, no mesmo ambiente alguém que naturalmente não deveria estar ali.

Então, quem diabos são esses diferentes que, nós, pessoas de bem, temos que tolerar? Basicamente falamos de tolerância quando nos referimos a negros, gays, alguns religiosos, gordos, pobres. Nós toleramos, deixamos passar que essas pessoas, com esses hábitos ou cores tão incomodas estejam ao nosso lado e desfrutem da democracia, da sociedade, como se fossem  penetras numa festa elegante.

Particularmente eu quero deixar claro que não tolero ninguém. Nem aceito. Nem nenhum eufemismo politicamente correto. Eu não nada. Eu faço parte da humanidade e usufruo da minha própria humanidade, com a profunda crença de que a diferença entre o eu e o outro é infinitamente menor do que as semelhanças.

Quando um homofóbico espanca um casal gay, ele pensa que não deve tolerar aquele comportamento. Quando um aluno universitário agride colegas covardemente pelo simples fato delas estarem acima do peso, ele acha que já tolerou demais a visão de uma mulher fora do padrão. Tolerar, minha gente, é um saco. A lógica da tolerância é revirar os olhinhos e virar o rosto quando duas garotas se beijam no shopping. É respirar fundo e não mudar de calçada, mesmo estando em pânico, quando na direção oposta vem um adolescente negro. Tolerar é dizer não tenho nada contra, mas não quero perto de mim.

Ainda bem que Gente com G maiúsculo não precisa do aval de ninguém para existir e ser feliz.

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Vou lançar aqui um desafio aos meus três leitores (oi mãe!): Ao invés de pensar em um discurso de tolerância, vamos quebrar a regra e pensar em termos de igualdade? O mundo agradece.

A Ponte

Estou aqui, enfurnada no site da gol tentando comprar uma passagem barata para ir ao Rio de Janeiro. Para mim a barrinha de cereal virou rotina, o amendoim um companheiro que vai bem com suco de laranja artificial de caixinha.

Como alguns sabem, eu sou carioca. Moro em São Paulo desde 2007, impulsionada por uns neurônios a menos e por um grande amor. Desse grande amor eu conto depois, mas adianto que foi um combo de excesso de literatura com abuso de álcool embalados em uma personalidade delirante e fractal. Tá, parei. Mas o fato é que depois do grande amor ter ido pelo ralo eu fiquei com um emprego e um dilema: voltar ou não para o Rio? Em São Paulo eu estava tendo experiências profissionais incríveis, conhecendo pessoas maravilhosas e ganhando uma independência que nunca tinha imaginado. Em São Paulo eu estava me tornando adulta. Então decidi ficar.

O problema é que por melhor que seja a experiência paulistana para um carioca e por mais que minha personalidade ordeira aprecie a caretice paulistana de não estacionar em cima da calçada, nada nesse mundo paga viver em uma cidade como o Rio de Janeiro. Eu falo do Rio de Janeiro clichê, com praias, montanhas, chopinho. Eu falo daquela vista de tirar o fôlego da Niemeyer. Eu falo do que é a Lagoa Rodrigo de Freitas mesmo num dia nublado. Mas eu também falo de algo intangível, e não por isso menos bonito. Eu falo é da memória. Para mim, ser carioca é passar as minhas intermináveis tardes de adolescência na compania dos meus amigos do CEFET, ali no Maracanã. Eu falo do cheiro de praia, quando meu pai nos encarapitava num Chevette decadente para nos levar pra Reserva. Eu falo de ter uma vó em Niterói e outra em Madureira. Eu falo de Realengo, de Oswaldo Cruz, da Tijuca. Eu falo do subúrbio, do meu subúrbio, que por definição já é uma memória, com suas cores desbotadas, dessa bandeira do Brasil  descascada pintada em algum muro desde a Copa do Mundo anterior. Ou seja, eu não apenas sou carioca, como sou carioca e suburbana, o que faz de mim uma saudade ambulante.

E a grande consequência disso? A ponte aérea. A malfadada ponte, para os íntimos. Só quem pega a conexão Congonhas – Santos Dumont com frequência sabe o tamanho do suplício. Mas para além do suplício físico de atrasos, mau humores, comida péssima, há o suplício íntimo. Eu agora sou uma mulher com duas casas. Em São Paulo meus gatos, meu quintal, minha cachorra, o maridón, os amigos novos, excitantes, alguns desterrados como eu. No Rio a família grudenta, recheada de primos, e os amigos que, só de me olhar, sabem a cor da minha calcinha e se ela está furada ou não. No Rio, eu sou mais eu, ou melhor, eu posso ser eu: o ambiente permite. Minhas piadas serão entendidas, meus palavrões tolerados, minhas meias palavras completadas. Já em São Paulo ainda estou under construction. Poucos me conhecem de verdade, mas existe essa liberdade de às vezes testar outros eus. Foda. E bom.

Ainda bem que o modus operandi é automático. Funciona quando a comissária me oferece a barrinha de cereal. Dependendo do sentido do trecho, eu aceito ou não. Ruminando a tal barrinha eu planejo meus dias cariocas, minha peça particular: ficarei de sexta a domingo em cartaz e bicho, the show must gon on.  A barrinha e a Baia de Guanabara lá em baixo e tudo se encaixa perfeitamente. Eu já ponho os pés no Santos Dumont existindo. Quando o avião segue pra Congonhas eu tô exausta, consumida, dormindo. Não há espaço para barrinha. Só para o cansaço e a saudade de casa, do hômi, do povo do trampo, dos bichos, da cama, do lugar onde eu sei o lugar onde estão todas as minhas coisas. E aí, onde que fica o lar, cara pálida?

O lar, meu povo, o lar fica dentro. E dói, viu? Dói admitir, dói construir, dói até escrever, pois parece que optando por um você desdenha do outro. Mas o lar é a ponte. A verdadeira ponte. E mesmo que eu não faça idéia de onde irei morar no futuro a ponte já ganhou mão dupla, fala porrrta e mermão na mesma frase. E que assim seja. Até eu mudar pra Recife.

O processo é lento

Quando eu era criança, lá no subúrbio romântico-carioca de oswaldo cruz, eu era um serzinho excluído. Eu não era muito parecida com as minhas colegas de classe, tampouco com as meninas da rua. Meu mundo, meu universo era restrito ao meu quarto e à minha amizade com alguns bebuns do boteco da frente de casa e com o Bira, jornaleiro que deixava eu ler todas as revistinhas de graça. Mas tive sorte. Apesar de não gostar muito das crianças do entorno, eu tinha muitos primos e primas, e isso supria a minha necessidade de convivência infantil.

Mas isso não é culpa de ninguém. Isso não é triste. Isso apenas era. Meu mundo infantil era feliz pra burro, eu gosto de olhar para mim e ver o subúrbio carioca dentro, falando alto às vezes (muitas vezes, literalmente falando alto, eu falo alto), e às vezes me dando uma certa vergonha alheia, das suas adolescentes pink-glitter, da pouca perspectiva, dos carros tunados com som alto, e de todas essas coisas que somente o subúrbio pode fazer por fazer por você. E dessa mistureba, eu, filha de uma assistente social de esquerda e de um advogado criminalista mutcho loco (em todas as acepções do termo mutcho loco). Eu, que com uns oito anos de idade, fui convidada por um amigo do meu pai para participar de um programa de uma rádio local. Um programa comemorativo do dia das crianças. A idéia era perguntar (vejam só que criativos) o que nós queríamos ser quando crescêssemos.

Eu era muito apavorada quando era criança. Qualquer merda me deixava sem dormir. Se eu não fizesse o dever de casa, acordava de madrugada para fazer, um horror.  Não preciso nem dizer que a noite anterior ao programa foi apavorante. Eu imaginava todo tipo de tragédia, de engasgo, de vontade de fazer xixi, de tudo que se pode imaginar. Foi uma noite conturbada. Talvez eu esteja exagerando, mas a sensação do coração dando pequenos disparos e eu tentando controlar aquilo é bem real ainda hoje.  Bom, de manhã minha mãe me colocou uma calça dinjs e uma camiseta vermelha e lá fomos para rádio. O ambiente era meio insalubre, acarpetato de cinza até o alto das paredes, o ar condicionado e o cheiro de mofo se misturando nas narinas. Cool. Os funcionários, com uma falsa simpatia pelas crianças, mandavam que ficássemos quietos quando a luz vermelha acendia e tals. Mão suada é um eufemismo nesse momento. Eu estava para ter um verdadeiro treco.

Digo tudo isso pois estava fuçando o  Why do you do what you do? , projeto do artista gráfico norte americano Tony Deifell. A coisa toda é muito simples: sair por aí registrando em fotos o que as pessoas respondem à pergunta: Por que você faz o que você faz? Tem respostas engraçadas, conformadas, sinceras, românticas… E eu comecei a lembrar dessa história antiga. Eu, de cabelinho chanel preto, sentada num banco alto, sacodindo meus pés calçados com um all star estampadinho no ar, verdadeiramente apavorada com a perspectiva de ter de responder o que eu queria ser quando crescesse.

Fato que até aquele momento eu sempre me imaginei sendo a patinadora do Carrefour. Eu achava aquelas meninas com uma malha colante, velozes, buscando os produtos, a coisa mais linda do mundo. Fora que eu verdadeiramente gostava de patinar, e aquele chão ultraliso do mercado era um sonho para mim, visto que minha rua era de paralelepípedos e eu tinha que andar algumas quadras para achar uma calçada boa. Imagine ter todo um Carrefour para patinar?

Eu não sei o que eu estava pensando no momento que a locutora, uma senhorinha de cabelo roxo, empurrou o microfone da mesa na minha direção e fez a fatídica pergunta. Provavelmente nada. Quando eu estou em picos de estresse minha mente se esvazia, o que é muito contraproducente em tretas de trabalho, confusões amorosas ou quando batem no seu carro. A mente vazia e o corpinho pequeno, tensionado, os pés balançando cada vez mais velozmente. E saiu, do nada. Rápido mesmo, num susto. O que você quer ser quando crescer?

- Estilista e escritora.

Eu devo ter dado um grunhido Golum qualquer por que a senhorinha perguntou de novo e eu respondi novamente sem nenhum comentário adicional:

- Estilista e escritora.

Lógico que num bando de médicos e astronautas a minha resposta causou uma mini comoção na locutora, que fez meia dúzia de gracejos sobre “essa juventude” e me desejou boa sorte.

O fato é que aquilo me deu um alívio imediato. Dizer, finalmente, a existência de uma ambição qualquer, descobrir algo dentro de mim que eu não sabia que existia. Foi bom.

Lógico que além de vontade, tem que existir alguma inclinação natural para coisa. Obviamente, com o meu senso estético nada apurado, ser estilista virou um troço fora de cogitação e eu acabo acompanhando a moda de longe como algo bonito, mas um tanto quando incompreensível. Já escrever se tornou uma certa obsessão, um alívio e também um hábito.  Eu nunca me esqueço de uma vez, entrevistando o Fernando Bonassi, ele me disse que escrevia para fugir da miséria. Que um dia ele descobriu que fazia isso direito e que pagariam para ele se o fizesse. Que escrever o livrou do subúrbio e também de um complexo de vira latas. Basicamente que deu a ele a vida que ele gostaria de ter.

Para mim é mais ou menos isso. Eu não me contento apenas em escrever. Eu quero viver de escrever. Basicamente, eu vivo de escrever hoje. E isso é uma conquista recente e relativamente instável, mas é sólido no sentido que começou em algum dia da década de 90 quando eu decidi contar em uma emissora de rádio, e logo não foi uma confissão íntima, e sim pública, para quem quisesse ouvir, que eu gostaria de escrever, e mais, que estava em processo de. Um processo lento é verdade. Mas ainda assim um processo. O meu processo.