Ser paga ou ser pega – a lógica da propriedade e o estupro de Queimadas

Um estupro coletivo. A expressão não dá conta do tamanho do horror do ato – estupro coletivo, eu penso novamente, as sílabas tentando se agrupar para dar forma à violência. Mas neses caso as palavras não dão conta.

Em Queimadas, munícipio da Paraíba, dois jovens armaram um ataque para estuprar suas colegas de trabalho, amigas e vizinhas. Na festa de aniversário de um deles um assalto foi simulado. Sete mulheres foram violentadas, e duas delas foram mortas – a recepcionista Michele e a professora Isabela.

Michele e Isabela foram mortas pois ao lutarem por suas vidas acabaram reconhecendo os agressores. Segundo as investigações todos os homens da festa sabiam do estupro. Todos os homens da festa acharam que aquelas mulheres que ali estavam mereciam ser estupradas, violadas, mortas.

Dois aspectos do caso me chamaram muita atenção: dos homens que não não participaram de forma efetiva, nada fizeram, não as defenderam, não denunciaram. A outra coisa foi que duas mulheres que também estavam na festa foram separadas das outras e não foram tocadas. Essas eram as namoradas dos dois mandantes do crime.

Essas duas características aparentemente menores do crime é que revelam o tipo de misoginia perversa que se esconde dentro da sociedade. Os homens que não participaram ativamente do crime de alguma maneira entenderam que aquilo não era nada demais. É um direito dos homens estuprarem mulheres. E as esposas dos criminosos não foram violadas pois afinal, já eram propriedade de alguém. As outras não foram poupadas pois afinal, não existia nenhum homem que zelasse pela segurança desse “bem”.

Para os estupradores de Queimadas uma mulher é um objeto assim como um carro, um copo, uma camiseta. E como todo tipo de objeto sem dono, existem aqueles que podem ser pegos e aqueles que podem ser pagos. E nessa lógica perversa, já que as moças presentes na festa não pareciam estar a venda o mais lógico seria pegar e dividir o espólio dos corpos violados na maior comunhão fraterna entre os participantes.

Choca saber que coletivamente esses homens resolveram estuprar essas mulheres. Que nenhum deles teve a consciência e o desejo de dar um basta nesse plano macabro antes que ele acontecesse. Choca, mas se a gente parar pra pensar nos crimes sexuais que são noticiados quase que diariamente, todos eles seguem o mesmo tipo de pensamento: mulheres não são pessoas. Mulheres são coisas e devem ser tratadas como tal.

É nessa despersonalização, nessa revogação súbita do direito de humanidade das mulheres é que surgem esses casos. Enquanto a lei continuar branda com crimes de ódio, enquanto continuarmos educando nossas meninas e meninos na papagaiada do “prende sua cabrita que meu bode tá solto” casos como esses vão continuar acontecendo. Não podemos mais fechar os olhos para o fato de que essa situação se perpetua por que meninas continuam a ser ensinadas a se portar como vítimas em potencial e meninos continuam a ser ensinados a se comportar como predadores. Isso não cria só condições ideiais para o abuso, mas toda uma cultura que esconde esses abusos, que os tolera e que os aceita como parte da sociedade.

Meninas continuarão a ser estupradas em ônibus sem que ninguém as socorra. Abusos sexuais perpetrados por vizinhos e parentes continuarão sendo a regra.

Eu particularmente não conheço nenhuma mulher que não tenha uma história de abuso ou tentativa de abuso para contar. Que não tenha sofrido algum tipo de violência só pelo fato de ser mulher. E o caso de Queimadas é o pesadelo se tornando real, esse sentimento de superioridade e esse comportamento de privilégio por ter nascido com “o sexo certo a quem tudo é permitido” elevado as últimas consequências.

Não gostaria que esse caso servisse de exemplo. Gostaria que ele nunca tivesse acontecido. Infelizmente a realidade não é essa e temos que lidar com o fato de que vivemos em um mundo onde esse tipo de crime é comum, é relativamente tolerado e considerado por muitos como um crime menor. Não é. É exatamente o tipo de crime que quando ocorre nos deixa a todos, coletivamente, menos humanos. E é esse tipo de tolerância ao horror que devemos combater, não só pra fora, pros outros – mas dentro de nós mesmos.

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Esse post faz parte da blogagem coletiva de repúdio ao caso de Queimadas, convocado pelas Blogueiras Feministas e pelo Luluzinha Camp. Para fazer parte, basta externar sua indignação e reportar para que seus posts sejam linkados nas páginas desses blogs.

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Outros posts participam dessa blogagem coletiva

Antes de começar o carnaval faça um minuto de silêncio, por Marília Moscou

Uma história, nossa história, por Luciana Nepomuceno

Horror – estupro coletivo na Paraíba, por Juliana Marotti

Repúdio ao caso de estupro como presente de aniversário, por Cecília Santos

Não Estupre, Por Liliane Gusmão

Queimadas, estupro e a cultura machista, por Talita R. Da Silva

A lista completa e atualizada das Blogueiras Feministas.

A lista completa e atualizada das Luluzinhas.

Por trás do biquini também bate um coração

O que mais existe por trás do biquini?

Ah, coração.

Cantado, versado e prosado, o coração feminino é o último mistério a ser revelado: é o monolito do Kubrik, é o 42 no Mochileiro das Galáxias, é o que rima com paixão na letra do pagode, o que não rima com nada que a gente não queira.

Mas coração não é só metáfora. É real:  um órgão, um músculo, com ventrículos e aortas. Ele bombeia o sangue para o seu corpo. Não há vida possível se ele se recusa a bater.

E é por isso que a dona Lu convocou essa blogagem coletiva: mulherada anda esquecendo que coração é de verdade, coração envelhece, adoece, sofre, dói – e tudo literalmente. Talvez seja por que tradicionalmente as doenças cardíadas sejam associadas ao mundo masculino.  Mas infelizmente, desde de que a Peggy de Mad Men pisou nesse mundo, estresse no trabalho, tabagismo e sedentarismo não são exclusividade dos homens.

Estudos indicam que 1 em cada 5 mulheres está propensa a desenvolver problemas cardíacos. E como fazer para evitar esse prognótisco? Acho que todo mundo já sabe que o combo não fumar, boa alimentação e prática regular de exercício é a resposta. Mas falar é mole, fazer é que são elas.

Quando mudei pra Sampa engordei quase 10 kg. Simples assim, de 59kg pra 69kg em 4 anos. Como isso aconteceu? Simples, no Rio eu era uma garota ativa, que fazia academia 3 vezes na semana e comia a comidinha de mamãe que é super saudável. Em São Paulo o estresse de não conseguir trabalho, aliado as comidas deliciosas da cidade me jogaram ladeira abaixo. E esse ano eu resolvi tomar uma atitude.

Voltei a correr e a preparar minha própria comida. O home office ajudou, pois como não tenho carro, era um saco carregar a marmita no ônibus. Em seis meses eliminei 8kg, participei de duas provas de corrida, e tava bem satisfeita comigo mesma exceto pelo famigerado cigarrinho.

Confesso, fumava muito pouco. Nunca durante a semana, só quando bebia. Nunca tinha um maço em casa e quando dava vontade, filava sem dó nem piedade do fumante que estivesse por perto. Mas em uma visita na minha médica ela falou que em algumas mulheres esse hábito pode ser mega nociv: quem só fuma quando bebe acaba fumando MUITO durante as festas, dando um choque de nicotina no organismo que é como se você fumasse todos os dias! Então, dá pra perceber que não é uma atitude inteligente.

Tem um mês que parei de fumar.  A dica mais preciosa que me deram foi: encontre prazer naquilo que te faz bem, e não naquilo que te faz mal. O prazer é muito associado ao proibido e a culpa, só que não precisa ser assim, o prazer pode ser uma coisa mais solar, alegre. Que tal colocar o seu prazer um pouquinho na saúde? Não é pra ser chato, é pra ser prazer de verdade. Ou vai dizer que é ruim sair um pouco do computador e ver o sol lá fora? Ou sentir o cheiro do cabelo gostosinho de xampu ao invés de fumaça?

E tudo isso trás uma recompensa, que é poder viver mais e melhor com a quem tá dentro do nosso coração. Dessa vez com metáfora liberada. :)

Outubro Rosa

Uma menina, ainda que muito pequena, sabe que a cor de rosa foi destinada a ela. São objetos dos mais diversos, que só pelo fato de estarem embalados ou tingidos em Rosa são específicos do sexo feminino e que à elas pertencem, seja um sapatinho, uma barbie, uma toalha, um vestido, a armação dos óculos.

Mas Outubro é o mês onde o cor de rosa não tem gênero. É a cor de meninas e meninos, homens e mulheres que estão na luta pelo combate ao Câncer de Mama.

O Outubro é Rosa pois rosa é o laço que simboliza a campanha:

 

No Brasil, temos uma estatística muito triste: somos um dos países com um dos maiores índices de mortalidade da doença. E não, o câncer que aparece aqui não é mais forte do que os outros. É que nós, brasileiras por desinformação ou falta de recursos econômicos estamos na lanterninha dos exames de mamografia, o único que detecta a doença no seu estágio inicial. Aqui nessas terras tupiniquins, TRINTA mulheres MORREM por dia em consequência do câncer de mama. Novecentas mulheres por mês. Dez mil e oitocentas por ano.

Os médicos já sabem que o exame do toque só detecta o tumor em estágios avançados, apenas a Mamografia pode, de fato, salvar as mulheres.

Infelizmente, a maioria das mulheres já intui que a mamografia é importante, mas ainda não sabe fazer valer o seu direito diante dos governos e dos planos de saúde. Two cents:

O SUS é obrigado a fornecer uma mamografia por ano para mulheres acima de cinquenta anos, sabia?

E se você tem plano de saúde, exija o exame. Converse com seu médico e peça para fazer.

E se você é jovem e acha que não vai acontecer com você, saiba que os casos em mulheres com meno de 30 anos mais que duplicou na última década.

Alguns dados bacanas:

- Parando de fumar e emagrecendo 2/3 das mortes por câncer de mama poderiam ser evitados. (Não estamos falando de ter 40kg, e sim de manter um peso normal e saudável pra sua altura, através de alimentação adequada e exercícios leves)

- 45% dos casos de câncer de mama no Brasil são diagnosticados em estágios avançados.

- Diagnosticado de forma precoce, muitas vezes a Mastectomia (retirada parcial ou total da mama) nem precisa ser feita.

- A janela entre a primeira menstruação e o primeiro filho aumentou muito, fazendo os casos de câncer em mulheres jovens se tornar mais comum.

- Uma mulher com câncer no Brasil só consegue começar o tratamento na rede pública SESSENTA dias após o diagnóstico.

Então que tal entrar nessa corrente? Além de fazer sua mamografia anual, que tal convencer suas amigas, irmãs, tias, primas, colegas de trabalho a fazerem o exame? E rapazes, dêem um empurrãozinho para suas namoradas, peguetes, cafuçuas, ficantes, amantes e esposas, certo? Também é uma luta de vocês.

É hora de virarmos a mesa, mudarmos as estatísticas, para mostrarmos que existe sim, um futuro pós Câncer de Mama, que não existe sentença de morte e que a vida pode ser muito muito boa depois de vencer a batalha.

 

O Carioca Exilado

O Carioca é o cidadão mais apegado a sua cidade que existe. O palácio das Laranjeiras é a Casa Branca, o Cristo é a Torre Eiffel e todos nós transitamos pelas ruas do Rio como lords e marquesas no footing domingueiro no Reino Encantado da Avenida Atlântica, só que usando havaianas.

Daí a vida passa uma rasteira no carioca. Algo acontece. Uma proposta de emprego, um amor incovenientemente distante, uma nota dez num concurso público federal e lá vai o pobre Carioca morar em outra cidade.

(Aliás só duas coisas apavoram tanto o carioca quanto mudar de cidade: bala perdida e chope quente)

Mas voltando à vaca fria: o Carioca mudou-se de cidade e status. Antes, fidalgo de si, orgulhoso de conhecer a mais remota ladeira de Santa Teresa, o aviãozinho que vende seus bagulhos na embalagem de ovo, e todos os garçons do Arco Íris pelo nome, agora ele é um tipo macambúzio e tristonho, o Carioca Exilado.

O Carioca Exilado começa sua vida na nova cidade ou país com a marra que lhe é habitual. Dá risada do paulista que tem medo do guarda de trânsito, zoa com a cara do parisiense com sua bisnaga debaixo do braço, insiste em chamar o soteropolitano garçom de “mermão”. Mas como um preso político quicado do País pelo Costa e Silva, o Carioca Exilado também não faz a menor idéia de quando voltará para cidade e troca toda a marra por um saudosismo de fazer o Ariano Suassuna te chamar de antiquado.

Podia nunca ter colocado os pés no Morro da Urca, mas exalta a vista, podia nunca ter sentido as dores e as delícias de se espremer num trem da central, mas jura de pés juntos que o vagão do samba é a melhor coisa inventada na história da sociedade ocidental, podia odiar praia, mas ao olhar um retrato de nossa orla, chega a sentir nos lábios o sal do biscoito globo e o agridoce do mate com limão da lata. O Carioca Exilado começa até a admitir em público, que vá lá, a Barra da Tijuca nem é tão longe assim: afinal a linha amarela tá aí pra isso. Promete mundos e fundos para o amigo português, que vai levá-lo para comer o melhor bolinho de bacalhau do mundo. E não, ele não fica no Alentejo, fica ali num boteco obscuro da Rua Sá Ferreira.

E logo o banzo toma conta do nosso herói. O Carioca Exilado não consegue mais ver graça na cidade que o acolheu. Faz amigos, faz amantes, faz desafetos, mas ainda assim não se conforma que na nova morada ninguém fique de pé na frente na banca de jornal filando as notícias dos periódicos pendurados com pregador, ou que a opção “joelho” simplesmente não exista no cardápio de salgadinhos.

Fica então assim, através da tagarelice e da comparação de minúcias, alimentando essa eterna esperança de voltar aos braços da verdadeira mãe gentil, de em definitivo divisar a silhueta da cidade tão bem descrita no Samba do Avião, e finalmente poder descansar o corpo numa cadeira de praia, bebericando uma skol geladíssima enquanto lê a mais nova e genial manchete de capa do Meia Hora. Mesmo que, antes de se mudar, o Carioca Exilado só visse o mar da janelinha do ônibus que o levava pro trabalho.

E essa greguíssima tragédia perpetua-se até o Carioca Exilado perceber no calendário que se aproximam feriados nacionais, férias, a morte da tia Eunice. Sempre aquela oportunidade única de passar seis horas na Dutra pensando nas areias douradas dos seus sonhos. É recebido com os afagos esburacados da Avenida Brasil, exulta ao ver a placa que indica TIJUCA COPACABANA, lê com emoção os versinhos apagados do Gentileza perto da rodoviária, coloca os pés no solo sagrado, finge que é o Papa e se sente em casa novamente.

E sofre. Sofre mortalmente por ver sua amada assim: sem a maquiagem onírica da saudade, real, calorenta, suando. E acaba amando ainda mais. Ama tanto que ama até os caras que gritam chamando passageiros para as vans, o medo de parar nos sinais de trânsito à noite, se enternece com a menina de shorts cor de rosa e uns seis anos banguelas nos dentes, que te vende balas, drops, chicletes. Aí o Carioca Exilado sente o Rio de verdade, venoso, na linfa, no fígado e no peito: dentro.

Depois de uma semana de choque de ordem e realidade o Carioca Exilado deve voltar. No carro, no ônibus ou no aeroporto, ele leva um talismã qualquer: uma concha, um retrato no celular, um Guaraviton. Então seu coração se parte. E um olhar mais apressado pode dizer que esse coração se dividiu entre a cidade para onde ele vai e o Rio de Janeiro, mas o Carioca Exilado jamais cometeria esse tipo de traição. Ele está dividido sim. Mas entre o Rio real e o inventado, que cismam em disputar espaço na memória.

Exausto, ele dorme, cabeça encostada na janela, sonhando sonhos de Atlantis.

Um conto, Um filme

A Livia Perini, diretora linda da produtora Musique, me chamou para escrever o roteiro do seu primeiro curta metragem. Conversamos, vimos referências e eu mostrei para ela um conto antigo, da época do saudoso Aquele de Quem Lhe Falei. Ela curtiu e agora estou adaptando meu próprio conto como roteiro.

Lógico que tenho um caminho longo: o conto não tem uma história propriamente dita, é um registro sensorial de um homem abandonado pela mulher que amava: são sons e imagens de uma vida que foi feliz,  mas que agora não existe mais. Então tenho que construir um fio narrativo, uma história, mesmo que sugerida, para o nosso rapaz sofredor.

É uma experiência nova e linda. Deixo o conto abaixo pra vocês já irem imaginando um pouquinho do filme.

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Eu te amo

Quem me olha agora, e não sabe, e não quer saber, quem me olha, me pensa triste. Mas eu tenho nas mãos tantos dedos, que te esquadrinharam o corpo e com tanta habilidade, que não posso mais, nessa vida, ter o direito de ser triste, enquanto eu lembrar, e é tão tarde, tão tarde. São meus olhos nublados, a hora mágica da quase noite, e você virá, mas só virá até aqui pra revirar mais um pedaço meu, um desses, que está agora espalhado pela nossa casa, aquela, que era nossa casa, e é tudo tão grande. Sua mania de preencher todos o espaços: a gargalhada subia veloz para o quarto do sobrado, e me atingia o peito, eu acordava sorrindo por que eu sabia que era um sorriso de ouvir rádio, meu amor, só você sorri ouvindo rádio.

Eu deixei o mundo, queimei todos os meu relógios, o tempo passou durante os seus adormeceres e despertares. Eu me fiz maior, bom e forte, e você se fez altar se fez tão minha, tão, da mais profunda docilidade, da mais feroz e apaixonada, e espantava-me a veemência de cada um dos beijos, e da urgência de todas as suas confissões.

Conta no meu ouvido, engatinha na nossa cama e cola a boca na minha orelha, sussurra baixo o motivo, e lambe minha nuca, contando, sem parar de falar, porque diabos tivemos o melhor do amor e ele foi-se antes de você, deixando esse buraco de coisa arrancada da parede. Sobe em mim, me goza chorando, e avisa a hora que volta, por que eu espero, não mexo nem as pálpebras, e se você quiser, nem esboço felicidade quando o barulho da chave virando fizer a porta ranger, no compasso do tremor das minhas pernas.

Quem me olha agora, e não sabe, tão quieto que estou, talvez me pense indiferente. Mas eu tenho ainda tanta dor, dessas dores criança, que dançam no peito e exigem silêncio para dormir, eu te sofro calado, então, e te sofro devagar, em cada sofá, em cada chuveiro, em cada armário – eu deixo a porta aberta, para ver entrecortado um vestido azul – e nas janelas onde olhávamos todos o prédios de São Paulo, eram todos que cabiam, e você contava para mim todas as luzes acesas onde vizinhos fazem amor.

Quem me olhar de perto, vai ver que você está agarrada na minha carne, está sempre comigo, dentro do meu olho, no meu sangue, está comigo, sempre, mesmo que não saiba mais que estar dentro de mim é bom, ou tenha se esquecido de como é estar tão perto da plenitude, mas eu sei, eu lembro e eu peço. Para quem, não sei, apenas peço. Mas sobrou ainda a alegria dos retratos, todos os dentes brancos enfileirados, o olho apertado contra um sol de terraço, o apartamento de Ilha Negra, nosso mar, um céu cinza, na nossa onda de carros parados e de respiração do mundo todo sobre nós.

Miguelando

Nego miguelando 200 reais de cachê. Assim não dá pra ser feliz.

Pequenos e grandes privilégios

Sentar e bater um papinho com o Francisco Ramalho é um pequeno privilégio.

Grande privilégio é ser amiga dele. Ouvir suas histórias de cinema, trocar livros, filmes e impressões sobre arte.

Um gentleman perdido no mundo cão.

Nasceu escrevendo

Estou trabalhando com, ao que parece, a roteirista mais experiente do Brasil na atualidade. Não, ela não escreve a mais tempo do que as outras; ela só é a mulher mais velha na atividade. Aliás, conversando sobre isso com ela, dei milhões de rodeios para falar da idade e ela me disse

- Velha, sou velha, a gente só inventa palavra para o que é novidade e não existe. Velhice existe desde sempre…

Às vezes o eufemismo esconde nosso próprio preconceito. Velhice não é feio, afinal.

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“Comecei a escrever e nem tinha papel na chácara. Escrevia no chão de terra, com a faca na árvore. Primeiro escrevia o meu próprio nome. Diversas vezes. Depois outras coisas. Escrevi de início, sem nem saber o que era escrever e agora descobri que é isso que o escritor faz: escreve o próprio nome, diversas vezes.”

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Preciso mesmo dizer que quando tiver oitenta anos quero estar assim? <3

Obrigações e direitos no reino do tem que.

O que você faz pelo mundo?

Recicla? Privilegia o transporte público e pára de usar carro?

O que você faz por você mesmo?

Consome alimentos orgânicos, de produtores locais e que ainda são melhores pra sua saúde? Dorme oito horas por dia?

São atitudes louváveis que melhoram a sua vida e a vida do outro, certo?

Mas o que você pensa e como você age com quem não faz nada disso?

Sei que é um texto que começa com muitas perguntas. E eu quero isso mesmo. Que você que está lendo pense nisso, se pergunte, se questione. Pois essas atitudes ditas saudáveis, sustentáveis e “corretas” estão se tornando lugar comum e acabamos cumprindo uma série de regras e dogmas sem se perguntar se isso cabe para si mesmo e para os outros.

Estamos vivendo num reino lindo, onde você pode fazer o que quiser. A única regra é que você tem que _________ para o seu próprio bem. E nessa lacuna você pode colocar o que quiser. Exemplos:

Tem que fazer exercício 3 x por semana, tem que comer 5 grupos de vegetais por dia, tem que gozar sempre que trepa senão é frígida e não conhece o próprio corpo (se você for homem e broxar, nem te conto o que andam por aí dizendo de você), tem que fazer parto natural sem anestesia senão seu filho vai estar “sendo drogado antes de vir ao mundo”, tem que usar fralda de pano senão tá destruindo o planeta, tem que usar copinho menstrual no lugar de absorvente pelo mesmo motivo, não pode ter carro, não pode tomar remédio pra depressão (senão você é fraco, isso é coisa da sua cabeça, melhor fazer uma yoguinha ou encontrar um guru), não pode ter babá senão você não é feminista e teu filho vai ficar traumatizado, tem que plantar a própria comida dentro do apartamento de 39 metros quadrados para não ingerir agrotóxicos.

O que a maioria das pessoas que seguem essas regras de forma acrítica não sabe é que tudo isso é opção. E não é opção pra todo mundo, é opção pra quem pode.

Vamos aos fatos: um pé de alface orgânico custa quatro reais, contra um real do comum, uma academia para exercitar seu corpo e mente, cem reais, yoga duas vezes na semana, duzentos reais e um parto natural nunca é coberto pelo plano de saúde e a futura  mamãe vai ter que desembolsar de cinco a dez mil reais para trazer seu filhote ao mundo como no tempo das vovós.

Então, claro, se alegre se você tem todas essas opções ao alcance do seu bolso.

Não me apedrejem ainda. Eu acredito que opção é isso – se você pode ir a pé ou de bike pro trabalho você é um privilegiado – você tem o direito de fazê-lo. Não é uma obrigação, nem para você, nem para os outros.

A sensação que eu tenho é que o mundo anda com valores tão confusos que as pessoas se apegam de forma desesperada às tabuas de salvação que andam vendendo por aí. Ao invés de consumir menos, consomem a malha orgânica e usam sabão ecológico para lavar a blusinha de bambu de cem reais…numa máquina cheinha de água potável.

A gente não vai salvar o mundo. Aliás, o mundo, não precisa ser salvo, e se precisasse isso seria feito na gentileza, no diálogo e no bom senso, mais do que fazendo da vida uma série de dogmas e fingindo que pode existir um ser humano incorruptível e perfeito o tempo todo. Aceitando nossa natureza falha talvez tenhamos uma chance de viver num mundo mais equilibrado, menos careta e com certeza mais feliz.

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Esse post, apesar de não ter uma temática exclusivamente feminista, foi gestado e pensado com o auxílio luxuoso das discussões de uma thread entre as Blogueiras Feministas, grupo do qual faço parte, e foi depurado pelo telefone com minha queridona @ladyrasta. Só pra ficar claro, as opiniões expressas nesse post não representam as opiniões do grupo de Blogueiras Feministas nem a opinião da Lady Rasta, são reflexões minhas que cresceram e amadureceram através dessas mulheres. Obrigada a todas.

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Esse post também é dedicado às amigas Grazie Marcheti e Paula Bertola, que foram a faísca dessa confusão.

A pessoa certa

A pessoa certa é linda, tem senso de humor, inteligência.

A pessoa certa tem tudo aquilo que sonhamos que ela tenha. E nós, mulheres modernas, descoladas e independentes deixamos de sonhar com o príncipe no cavalo branco e com o yuppie casadoiro num jaguar conversível. Nós sonhamos com o pé no chão, com o real, com o possível. Basta que a pessoa certa nos apareça no momento em que podemos dar atenção pra ela. Que a carreira já esteja estabilizada e não precisemos dividir o aluguel naquele apartamentinho furreca, naquele bairro fuleiro. Que a pessoa certa tenha uma mãe prestativa, mas pouco invasiva, para cuidar do nosso lindo labrador dourado enquanto viajamos para Paris.

A pessoa certa é ética, divertida e original.

Jamais fala um lugar comum, a pessoa certa. A pessoa certa se envolve em uma causa nobre: resgata animais na rua, lê para crianças cegas, aplica sua grana em fundos sustentáveis. Mas milagrosamente a pessoa certa não é um coxinha politicamente correto e que te recrimina quando você quer pedir aquele delivery cheio de embalagens de isopor. A pessoa certa tem a leveza e a sabedoria de entender que devemos nos permitir alguns pecados, ou senão a vida fica sem graça. A pessoa certa ri da sua pronúncia troncha do inglês, tem um emprego muito bom e que paga muito bem, mas nunca vira noites no escritório e nem tem que viajar a trabalho, te deixando dias e dias na mais profunda solidão, aquele abandono específico que acomete quem se separa, mesmo que por um instante, da pessoa certa.

A pessoa certa vai nos fazer feliz.

Dizendo o quanto nos acha belas ao acordar ou com o rímel escorrido. A pessoa certa nos agarra quando voltamos da academia, sem se incomodar que não tomamos banho. Dá presentes sem data específica. Gosta da sua família. Quer dois filhos e adotar mais um, sem se importar com a idade ou cor da criança. A pessoa certa não quer morar em uma grande cidade e planeja, com você, um futuro confortável em uma praia do sul do País, recebendo amigos à beira da piscina.

Mas infelizmente a pessoa certa não vai nos surpreender.

Afinal ela existe só dentro de nós. Naquele pedacinho de nós que insiste em planejar tudo, em controlar tudo, em prever como vai ser a nossa vida “daqui pra frente”. A pessoa certa está presa, enclausurada em uma parte do nosso coração que ainda acredita que a felicidade  só existe quando encontramos a metade que nos fará plenas, esquecendo que ninguém merece esse fardo além de nós mesmas.

Somos nós as responsáveis pela nossa alegria de existir; compartilhar o amor é duro, difícil, desafiante. Pois compartilhar o amor com a pessoa certa é fácil, não tem atrito, conflito, discussão. Difícil é cuidar com generosidade daquele amor que surge com aquele cidadão que esquece de dar comida pro gato e fica berrando a cada gol do corinthians. Essa pessoa é aquela que quando te olha faz você ter um monte de dúvidas e uma única certeza. É a pessoa que a trancos a barrancos constrói com você uma felicidade real, palpável, das coisas da vida. É essa pessoa. A pessoa errada.