Ser paga ou ser pega – a lógica da propriedade e o estupro de Queimadas

Um estupro coletivo. A expressão não dá conta do tamanho do horror do ato – estupro coletivo, eu penso novamente, as sílabas tentando se agrupar para dar forma à violência. Mas neses caso as palavras não dão conta.

Em Queimadas, munícipio da Paraíba, dois jovens armaram um ataque para estuprar suas colegas de trabalho, amigas e vizinhas. Na festa de aniversário de um deles um assalto foi simulado. Sete mulheres foram violentadas, e duas delas foram mortas – a recepcionista Michele e a professora Isabela.

Michele e Isabela foram mortas pois ao lutarem por suas vidas acabaram reconhecendo os agressores. Segundo as investigações todos os homens da festa sabiam do estupro. Todos os homens da festa acharam que aquelas mulheres que ali estavam mereciam ser estupradas, violadas, mortas.

Dois aspectos do caso me chamaram muita atenção: dos homens que não não participaram de forma efetiva, nada fizeram, não as defenderam, não denunciaram. A outra coisa foi que duas mulheres que também estavam na festa foram separadas das outras e não foram tocadas. Essas eram as namoradas dos dois mandantes do crime.

Essas duas características aparentemente menores do crime é que revelam o tipo de misoginia perversa que se esconde dentro da sociedade. Os homens que não participaram ativamente do crime de alguma maneira entenderam que aquilo não era nada demais. É um direito dos homens estuprarem mulheres. E as esposas dos criminosos não foram violadas pois afinal, já eram propriedade de alguém. As outras não foram poupadas pois afinal, não existia nenhum homem que zelasse pela segurança desse “bem”.

Para os estupradores de Queimadas uma mulher é um objeto assim como um carro, um copo, uma camiseta. E como todo tipo de objeto sem dono, existem aqueles que podem ser pegos e aqueles que podem ser pagos. E nessa lógica perversa, já que as moças presentes na festa não pareciam estar a venda o mais lógico seria pegar e dividir o espólio dos corpos violados na maior comunhão fraterna entre os participantes.

Choca saber que coletivamente esses homens resolveram estuprar essas mulheres. Que nenhum deles teve a consciência e o desejo de dar um basta nesse plano macabro antes que ele acontecesse. Choca, mas se a gente parar pra pensar nos crimes sexuais que são noticiados quase que diariamente, todos eles seguem o mesmo tipo de pensamento: mulheres não são pessoas. Mulheres são coisas e devem ser tratadas como tal.

É nessa despersonalização, nessa revogação súbita do direito de humanidade das mulheres é que surgem esses casos. Enquanto a lei continuar branda com crimes de ódio, enquanto continuarmos educando nossas meninas e meninos na papagaiada do “prende sua cabrita que meu bode tá solto” casos como esses vão continuar acontecendo. Não podemos mais fechar os olhos para o fato de que essa situação se perpetua por que meninas continuam a ser ensinadas a se portar como vítimas em potencial e meninos continuam a ser ensinados a se comportar como predadores. Isso não cria só condições ideiais para o abuso, mas toda uma cultura que esconde esses abusos, que os tolera e que os aceita como parte da sociedade.

Meninas continuarão a ser estupradas em ônibus sem que ninguém as socorra. Abusos sexuais perpetrados por vizinhos e parentes continuarão sendo a regra.

Eu particularmente não conheço nenhuma mulher que não tenha uma história de abuso ou tentativa de abuso para contar. Que não tenha sofrido algum tipo de violência só pelo fato de ser mulher. E o caso de Queimadas é o pesadelo se tornando real, esse sentimento de superioridade e esse comportamento de privilégio por ter nascido com “o sexo certo a quem tudo é permitido” elevado as últimas consequências.

Não gostaria que esse caso servisse de exemplo. Gostaria que ele nunca tivesse acontecido. Infelizmente a realidade não é essa e temos que lidar com o fato de que vivemos em um mundo onde esse tipo de crime é comum, é relativamente tolerado e considerado por muitos como um crime menor. Não é. É exatamente o tipo de crime que quando ocorre nos deixa a todos, coletivamente, menos humanos. E é esse tipo de tolerância ao horror que devemos combater, não só pra fora, pros outros – mas dentro de nós mesmos.

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Esse post faz parte da blogagem coletiva de repúdio ao caso de Queimadas, convocado pelas Blogueiras Feministas e pelo Luluzinha Camp. Para fazer parte, basta externar sua indignação e reportar para que seus posts sejam linkados nas páginas desses blogs.

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Outros posts participam dessa blogagem coletiva

Antes de começar o carnaval faça um minuto de silêncio, por Marília Moscou

Uma história, nossa história, por Luciana Nepomuceno

Horror – estupro coletivo na Paraíba, por Juliana Marotti

Repúdio ao caso de estupro como presente de aniversário, por Cecília Santos

Não Estupre, Por Liliane Gusmão

Queimadas, estupro e a cultura machista, por Talita R. Da Silva

A lista completa e atualizada das Blogueiras Feministas.

A lista completa e atualizada das Luluzinhas.

11 Responses to “Ser paga ou ser pega – a lógica da propriedade e o estupro de Queimadas”

  1. Nooossa! Quando a gente pensa que nada mais pode nos surpreender, aparece isso! Gente, é o fim do mundo, se não for esse ano, tá perto realmente! Esses caras não podem ser chamados de homens, muito menos de seres humanos, são monstros.

    Beijocas

  2. [...] por uma JUIZA, porque homem nenhum consegue compreender quão sagrado seu corpo é para uma mulher. Ser paga ou ser pega – a lógica da propriedade e o estupro de Queimadas, por Renata Corrêa Choca saber que coletivamente esses homens resolveram estuprar essas mulheres. Que nenhum deles [...]

  3. Rita disse:

    Ah, Renata

    tentei várias vezes escrever sobre o caso e não consegui. Há muito em seu texto do que eu gostaria de ter escrito.

    Bj
    Rita

    • Miroca disse:

      Renata, voce escreveu tambem muito do que eu gostaria …
      Mas esta assim, uma piora consideravel na objetizacao das mulheres uma volta a um desrespeito total, os homens parecem estar loucos pra todo lado! So porque as mulheres se liberaram e agora tambem gostam de comer, a categoria vagabunda s se ampliou, por isso a Marcha das vadias este ano!
      E vejo semelhancas de Brasil com Congo numa hora dessas, um prazer em estrupar em massa, mesma coisa. Uma ou 1000 e igual a violencia , o machismo!

  4. [...] aqui um trecho do texto da Renata Corrêa. Ela enfocou com perfeição os pontos que mais me chamaram atenção neta história [...]

  5. Nathalia Macedo Haddad disse:

    Estou chocada, mocinha.. Eu não sabia disso que aconteceu até receber os tweets mostrando dois blogs falando de tal. Caramba, isso é loucura. Isso não é normal e não deveria ser normal. Eu posso dizer que nunca sofri nem um tipo de abuso nem violência por ser mulher, mas que outras pessoas como eu podem dizer a mesma coisa? Isso tem que parar. Não pode continuar do jeito como está.

  6. [...] Ser paga ou ser pega – a lógica da propriedade e o estupro de queimadas por Renata Correa [...]

  7. [...] “Dois aspectos do caso me chamaram muita atenção: dos homens que não não participaram de forma efetiva, nada fizeram, não as defenderam, não denunciaram. A outra coisa foi que duas mulheres que também estavam na festa foram separadas das outras e não foram tocadas. Essas eram as namoradas dos dois mandantes do crime. Essas duas características aparentemente menores do crime é que revelam o tipo de misoginia perversa que se esconde dentro da sociedade. Os homens que não participaram ativamente do crime, de alguma maneira entenderam que aquilo não era nada demais. É um direito dos homens estuprarem mulheres. E as esposas dos criminosos não foram violadas pois, afinal, já eram propriedade de alguém. As outras não foram poupadas pois afinal, não existia nenhum homem que zelasse pela segurança desse ‘bem’.” (da Renata Correa, leia aqui). [...]

  8. [...] feministas. O mundo precisa muito de mais e mais deles. E então,  coisas horrorosas como isso aqui não mais [...]

  9. Regina disse:

    Parabéns pelo texto claro e muito verdadeiro. Eu não saberia dizer tanto, mas senti muito quando fiquei sabendo do caso.

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