Quando fui ao show da Amy Winehouse em janeiro deste ano lá na Arena Anhembi não fiquei impressionada com a performance da cantora, com sua magreza ou com seu famoso picumã. Ela obviamente não estava em condições de se apresentar e seja lá os motivos ou pessoas que a fizeram subir no palco, não pude deixar de sentir uma pena enorme daquele ser humano, tentando se reerguer na frente de milhares de pessoas, sem nenhum sucesso.
O público que estava lá, parecia se deliciar com a decadência de Amy. A cada vez que ela errava a letra, tropeçava ou parecia perdida as pessoas gritavam, brindavam, pulavam. Como se o show não fosse a música, e sim a documentação da destruição daquela mulher. Movimento parecido aconteceu com Nina Simone e Ella Fitzgerald: a dor delas se transformou em atração, junto com a voz poderosa e casamentos desfeitos. A diferença é que com a Amy Winehouse o escárnio virou parte do show também. E cada vez que pulavam e comemoravam a queda dela eu ficava completamente penalizada. Por que diabos estavam comemorando a desgraça daquela pessoa? Amy Winehouse é uma artista revolucionária, com uma voz maravilhosa. Ela trouxe vida nova ao soul, suas músicas são divertidas, inteligentes. Sua simples existência conseguiu renovar toda uma cena musical, e se hoje você ouve feliz da vida Mercy, da Duffy ou se impressiona com a beleza do disco 21, da Adele, saiba que sem Amy, talvez elas estivessem tocando em algum Pub para meia dúzia de bebuns.
Daí que dia desses veio a notícia de que o Charlie Sheen tinha se drogado tanto que os produtores decidiram cancelar a sua série, a engraçadíssima Two And A Half Man. Vale dizer que Charlie Sheen é o comediante mais bem pago dos EUA ultimamente, ganhando cerca de 1 milhão de dólares por episódio de seu show, ou seja, um cara bem sucedido. As trajetórias de Amy e Charlie Sheen possuem paralelismos: abuso de drogas, relacionamentos violentos, barracos, fotos comprometedoras, e claro: exposição pública de suas mazelas. Charlie Sheen vai entrar no Guiness como a pessoa que conseguiu mais seguidores no twitter em 24h. Os posts completamente alucinados como I Still Winning e os retuítes de elogios ao comportamento errático do ator são a grande atração da timeline. Como alguém que bate da mulher, bate o carro quando dirige bebado, humilha colegas acha que “está ganhando”? E como que isso ao invés de gerar consternação gera ovação?
Estamos virando um público cada vez mais sádico, evoluindo e muito do espectador de reality show. Nós não estamos consumindo um produto da mídia de massa ou um personagem da cultura pop, estamos consumindo as pessoas, gente de verdade, no pior sentido que consumir pode ter: de drenar, extingüir. Queremos ver a destruição, ser espectadores in loco, em tempo real. Estamos mais preocupados com a próxima porrada que a Amy vai levar do ex-marido ou na próxima porrada que o Charlie Sheen vai dar na ex-mulher. Não é? Afinal é bem mais divertido do que ouvir a música dela ou se divertir com o artista que ele é.
Nem todo mundo pode ser artista. Ser artista depende de formação, referência, tempo para amadurecer, trabalho duro e inspiração, ter algo a dizer e dar esse algo pro mundo. Um olhar pro mundo. Já a dor é democrática, atinge até os imbecis. E deve ser a eles que, generosamente, Charlie Sheen e Amy Winehouse dedicam cada escândalo. Aproveitem, já que o martírio desses dois parece longe de ter um happy end.

6 Responses to “A Desgraça Alheia”
É exatamente o que eu penso. Aplaudir a desgraça humana é cruel e deseducativo. Eu como a gente estava comentando, estou muito preocupada com uma glamourização da violência contra a mulher (a autodestruição já é glamour).
Oi Renata, gostei muito do seu blog. Só discordo de uma coisa com relação a este seu texto, não acho que estamos cada vez mais sádicos, acho que sempre fomos, acho inclusive que antes era pior, assassinatos em praça pública, etc. etc., eu acredito no inverso, que isso tem sido cada vez menos preponderante. O que eu posso fazer, sou uma otimista.
Reality show do Ozzy, do início da década passada, é o programa mais assistido da história da MTV.
Oi Renata, adorei seu blog, você escreve coisas muito inteligentes, parabéns. Quanto à Amy Winehouse, concordo plenamente. Ela é uma cantora fantástica! Eu não sou muito ligada em musica pop recente, muito menos a internacional. Mas ela é alguém que eu paro para ouvir e admirar. E fico consternada com suas desgraças. Acho um absurdo quem nem para para ouvi-la e simplemente a odeia por suas desgraças, considerando que “ela não tem noção”, ou coisa do gênero, sem perceber o quanto perdida e sem auxílio uma pessoa assim está. Lembro da minha tristeza absoluta quando soube da morte de Cássia Eller e espero que Amy não tenha um destino parecido, como o de tantos outros artistas que entram nessa “pior”.
Cada um sofre como pode, apesar das piadas é fato que nós, o público, estamos consumindo cada dia mais o sangue alheio. E então vem essa galerinha “politicamente correta” ou os “humoristas”, será que não existe mais um meio termo? sem fugir para a ignorância ou para o abuso de todas as coisas?
Tanto Charlie quanto Amy foram/são consumidos por nós como drogas, e no que esse consumo vai nos levar não é mesmo um final feliz.
Nossa Renata, muito bom seu texto… Acho que ultimamente as pessoas têm praticado um canibalismo social, devorando de forma insessante as personalidades problemáticas que surgem e que sabe-se lá o motivo, tendem a ser mais frequentes e cada dia piores