Gente, pode isso no humor?

Fazia tempo que eu preparava um post sobre humor. Rolava um incômodo, da minha parte. Procrastinei. Não sabia de onde vinha o incomodo, na real, então não conseguia elaborar exatamente o que eu pensava ou sentia a respeito. Mas com o risco de repetir o Yuri Moraes em sua excelente Carta Aberta ao público de seu programa Gang Bang, vou tentar aqui organizar algumas poucas idéias do que eu acho.

Estou bem espantada com o caga-regrismo que se abateu sobre a galera que produz humor aqui nesse lado quente da Terra. De um lado, uma gritaria do que pode ou não pode. Humor pode falar de negro? E de gay? De loura pode? Síndome de Down? Cadeirante? HIV positivo? Terremoto no Haiti? Do Bolsonaro pode? Do outro lado uma galera que defende um salve-se quem puder, sem questionamento algum. Duas verdadeiras gangues que não se entendem.

Gostemos ou não, o humor pode falar de tudo. De qualquer coisa. O humor é um reflexo da sociedade, uma lente pela qual olhamos a vida. Uma MANEIRA de olhar o que acontece ao nosso redor. Aliás isso foi bem ilustrado pelo Woody Allen no filme Melinda e Melinda, lembram?

Dito isso, não podemos dizer que existe, digamos, um “limite temático” para o humor. O humor deve ser engraçado. Fazer rir. E ponto.

Lógico que não podemos esquecer que qualquer produto de entretenimento, arte e cultura de massa possui intrisecamente um valor ideológico embutido. Seria uma desonestidade intelectual dizer que não. Então quando algum redator está escrevendo humor, quando um ator o está interpretando, quando um humorista está criando ele está colocando na tela ou no palco a sua visão de mundo, o que você quer dizer sobre o mundo e para o mundo. Então não sejamos inocentes de achar que uma peça de humor existe como um fim em si mesma.

Você é o que você escreve; ou diz. Por isso esse incômodo lá do primeiro parágrafo cresceu quando eu li a entrevista do integrante do CQC Rafinha Bastos.

Para quem não leu a entrevista, basta clicar aqui.

Rafinha reclama do nosso “terceiro mundismo” no humor. Que aqui no Brasil as piadas devem ser de uma maneira correta, tutelando o espectador para rir na hora certa. O humor aqui, segundo rafinha é terceiro mundista pois é fácil de ser absorvido e que ele não faz humor para o “povão” e jamais o fará. Revolucionário para o entrevistado eram os Trapalhões pois eles “Faziam piadas racistas, tiravam barato de nordestino.” Basicamente ele reduziu Os Trapalhões a visão de mundo dele, já que o grupo era bem mais do que isso. Mas o que somos nós além de nossas opiniões?

Eu podia dizer um monte de coisas sobre isso, mas deixo dois prints do twitter do @ibere falarem por mim.

Rá!

Humor é Compromisso!

Eu nem tenho coragem de perguntar o que seria o “povão” para Rafinha Bastos. Deixo isso pra imaginação do leitor.

Particularmente CQC não é meu tipo de humor. Mas eu sei de muita gente legal que gosta. Eles tem público e eles tem todo o direito e dever de fazer o tipo de humor que fazem. Um humor que tem um target bem definido de classe. De quem quer atingir e de quem quer angariar simpatia.

Não acho que o “caso bolsonaro” foi acidente. Não acho que as ofensas a Preta Gil sejam engraçadas e tampouco acho que chamar mulheres, quaisquer que sejam elas, de prostitutas, faça alguém rolar no chão de dar gargalhada. Mas isso é só a minha opinião.

A ofensa pela ofensa, pode causar espanto, surpresa, vergonha alheia, constrangimento. Mas chega a ser desqualificar o trabalho de humoristas realmente engraçados, chamar isso de humor.

Pois isso aí não tá invertendo a lógica vigente. Isso aí não tá dando um nó, isso aí não tá sendo novo. Tá sendo velho. Conservador. Ultrapassado pra cacete. Nesse sentido, os bordões do Zorra Total estão anos luz a frente.

Uma piada que usa um tema machista, homofóbico ou racista não necessariamente é ruim, mas corre o risco extremo de não ser engraçada. Porque é uma piada velha. Já ouvimos isso milhões de vezes. Uma piada é boa quando reverbera, te tira da tua zona de conforto. E, gente, me desculpe quem gosta, mas fazer piada racista é mais velho que andar pra frente. Mais velho do que a piada do papagaio e do português. Mas piada tem TARGET, como todo produto. Então você pode decidir rir com aquela piada que o tiozão de Piracicaba conta pros amigos da firma no churras, com o Rafinha Bastos, com o Nóbrega ou com o Marcelo Adnet. Rir com cada um deles diz um pouco sobre quem você é. E isso não quer dizer que um é melhor que o outro. É a apenas uma questão de gosto.

Ai, Renata, mas que chato, então não podemos mais fazer piadas que envolvam negros?

Deixo o Stand Up da Wanda Sykes te contar uma ou duas coisas sobre como fazer uma boa piada. Com negro, gay, família e tudo mais o que tem direito.

Que tal uma piadinha de pobre?

Claro que podemos! Podemos sempre. De gordo também. De judeu, de classe média. Mas pra mim, politicamente incorreto é o South Park fazer uma luta épica entre Jesus e o Diabo num ringue, zoar literatura de vanguarda, ou fazer os pais dos protagonistas se matarem por um pipe de maconha. É o Homer Simpson estrangular o Bart. O Saturday Night Live falar de pedofilia usando como exemplo o filme O Profissional, que Natalie Portman estrela com 11 anos de idade. E para não fixar só nos exemplos gringos, temos o Bento Ribeiro no Furo MTV falando do Feliz Dia da Obesidade Mórbida ou a Dani Calabresa fazendo uma imitação hilária de Daniela Albuquerque no Comédia MTV. Ou o extinto Cilada do Bruno Mazzeo. O Gang Bang, do Adriano e do Yuri Moraes. É gente que faz humor raíz, com o propósito de divertir, sem medo, sem limites, mesmo tocando em pontos sensíveis como alcoolismo, sexo, bullying, diferenças sociais, incesto. E guess what? Engraçados pra cacete.

Um humor demolidor de verdade é exatamente isso: destrói a lógica, o senso comum. Se é para ser mais do mesmo, qual é o ponto?

Que tal uma pausa para uma piada de deprimido?

O negócio tá tão feio que outro dia veio um amigo reclamar que no meu roteiro tinha um paraplégico mau caráter. Repliquei que se paraplegia deixasse todo mundo gente fina, era preferível quebrar a espinha da humanidade. Aguardo voluntários.

13 Responses to “Gente, pode isso no humor?”

  1. Danilo disse:

    Eu vou além do que vc escreveu no seu texto. Pois se o pela saco lá que copia nome de disco do Matanza (arte do insulto) fala que somos terceiro mundistas do humor, eu digo que ele é um colonizado. Stand up comedy não faz parte da cultura humorística do brasileiro. Ele pega uma receita yankee e como bom colonizado, copia e acha que é engraçado.

    To fora. Prefiro plantar bananas. Stand up comedy é uma das paradas mais chatas que já inventaram.

  2. Gustavo Amigo disse:

    Belo texto, Renata. Eu já vi muito video engraçado que trata dos temas gay, machismo, judeu que são engraçadíssimos e que não apelam para o preconceito.

    Agora eu vou soltar uma parada sincera aqui, eu prefiro o humor americano ao brasileiro, acho que os caras estão a frente. Há vários momentos geniais do Saturday Night Live. Jon Stewart e Steve Colbert é o fino do fino do humor mundial, não há nada melhor atualmente. Isso sem falar de Seinfield, Woody Allan, Cris Rock e por ai vai. Gosto principalmente pq eles já passaram dessa debate cafona entre politicamente correto e incorreto, que é um dos assuntos mais chatos que existe (no offense).

    Agora não entendendo esses comediantes brasileiros de comédia em pé, o cara faz uma piada racista e quer que o movimento negro fique quieto. Depois vem dae uma de coitadinho – “os caras politicamente correto me zoaram”. Na boa, existe patrulha maior do que a do politicamente incorreto? Não pode falar um ai sobre uma piada que os caras já vem pra cima te chamar de chato, mala e por ai vai.

    PS: Sobre o Jon Stewart, acho o Adnet é que tem o maior potencial de fazer um lance a altura.

  3. Tem tanta coisa pra dizer sobre esse assunto q não sei nem por onde começar. Aliás, até sei. Apaguei dezenas de linhas antes de finalizar com isso.

    Vou elogiar o Zé Bonitinho.

    Jorge Loredo. O gênio.

    O personagem nasceu no final dos anos 50 e indo pros 60. Uma época na qual a cultura brasileira (pra variar) soltava urros gozosos ao ver qq coisa vinda dos Estados Unidos. Era liquidificador, era a Seleções do Reader’s Digest, era o cinema, era o Rock, etc. Mas, nós éramos uns caipiras ainda. Queríamos ser americanos e não tinha jeito.

    O Jorge Loredo pegou tudo isso e foi tirando gordura daqui, requinte dalí e deixou a síntese desse embaixador da cultura americana em Pindorama. O Zé Bonitinho é como uma caricatura com traços simples. Está tudo lá, com todo o exagero da simplicidade. É “o” personagem de humor do séc XX no Brasil.

    Já o humor de bordão… Adoro! Há páginas de texto antropológico em um bordão daqueles bons mesmo.

    Parece simples. Parece q qualquer um pode fazer um Zé Bonitinho…. um bordão…. Mas, não pode! Isso é difícil.

    Mais fácil é fazer o contrário. Pegar uma coisa vazia e, para ficar engraçado, ir enfiando trocadilho, preconceitos arraigados, lugares comuns e gírias de um subgrupo do subgrupo da sociedade.

    É um estilo….

    Eu prefiro quem vai lapidando, não quem vai usando técnicas de marketing para dar um valor agregado ao tema comoditizado e ultrapassado.

    Tá cheio de novos tipos para serem lapidados por aí. Ou como personagem ou como assunto para stand up. Assim como o Jorge Loredo fez em 1960. Espero que algum bom humorista faça isso. Pq eu passo o dia todo conectado vendo piadas q depois são repetidas em programas de humor cool. E isso não me faz rir.

    Prefiro rir com o gay-mais-violento-do-que-pitboy e das crianças-sintonizadas-e-chatas do Zorra Total. Pq são dois tipos que foram assim lapidados e jogam na nossa cara uma realidade que não estávamos prestando atenção, com humor… sempre com humor.

    Pq mostrar q político é safado, celebridade é fútil, astro teen é burro e que o patrocinador está sempre certo… ah”… isso eu sei e não acho graça.

  4. Luccy disse:

    Bom, eu acho que humor não tem limite de tema, porém me ofendo com algumas piadinhas que tendem a diminuir a importância que as coisas tem. Por mais que possamos fazer humor com qualquer coisa, não acho a menor graça comportamentos preconceituosos.
    Entenda, tocar no assunto não é necessariamente fazer piada de mal gosto, podemos falar de esteorotipos para negros, judeus, asiáticos, mulheres, deficientes, etc e ser engraçados sem ofender ninguém. Mas quando o punchline é justamente o comportamento violento contra estes grupos, eu acho ofensivo. Pois na minha opinião isso banaliza comportamentos preconceituosos, além do que não acho nenhuma graça em coisas como bater em mulher, descriminar negros e não tolerar homossexualidade (muitos acham que ser gay por si só já é engraçado).
    Enfim, acho que se pode falar de qualquer coisa, mas demonstrar intolerância, racismo e machismo, pra mim não tem a menor graça. E se me sentir ofendido, tenho o direito né? Assim como vcs têm direito de falar qlqr merda sem graça que quiserem, só não venha me chamar de chato politicamente correto se eu me ofender…
    Só mais uma coisa, seguir EUA como exemplo é bem patético, é o país desenvolvido com maiores estatísticas de preconceito de raça, gênero e credo. Dadas as exceções, no interior é um povo racista, machista pakaraio, extremamente intolerante e absurdamente violento, se é pra engolir a cultura “Americana” prefiro a brasileira, que mesmo com todos seus defeitos é tolerante e pacífica.

    • Luccy,

      Eu não segui como exemplo os EUA, eu dei exemplos americanos. Poderia dar de ingleses, ou portugueses.

      Não sei se você percebeu, mas meu post não defende todo e qualquer tipo de humor. Citei o caso Tas, onde ele chama mulheres de prostitutas, por exemplo.

      De mais a mais eu acho que ofensa é prerrogativa do ofendido, se alguém se ofender, o autor tem mais é que botar a violinha do saco.

      Sobre o Brasil ser tolerante e pacífico, acho que não estamos vivendo no mesmo País: temos um dos maiores índices de assassinatos de homens jovens do mundo, fora violência de gênero. Você já esqueceu dos jovens queimando índios, espancando empregadas em pontos de ônibus, da prostituição infantil no interior do norte/nordeste, do espancamento de gays na paulista? Pois é, não somos tolerantes nem pacíficos. E isso se reflete diretamente no tipo de humor que é feito aqui.

  5. [...] Renata Correa (@letrapreta) escreveu um texto bem legal sobre o assunto. Apesar de eu discordar sobre o humor do Adnet, Calabreasa e similares (Furo MTV é [...]

  6. CQC não é um programa de humor. É um programa com humor.

    Pelo texto, me parece bem claro que você não gosta nada do CQC. Eu realmente gosto do programa e dos humoristas. E eu também acredito que é possível se fazer humor com qualquer coisa.

    E também acho que o humor brasileiro está engatinhando, anos luz atrás do humor americano. Não há nenhum humor de opinião, defensor agressivo de lados polêmicos, como George Carlin fazia. Parece que nosso humor se obriga a ficar em cima do muro atirando para todos os lados.

    Mesmo assim, eu adorei a entrevista do Danilo Gentili na Marília Gabriela. E eu achei estranho que a carta que você elogiou do Yuri Moraes vai a favor exatamente do que pregam Rafinha Bastos e Danilo Gentili: um humor livre, sem tabus, sobre qualquer assunto.
    Como qualquer humor, corre o risco de não ser engraçado. Tanto Yuri quanto Rafinha quanto Danilo quanto o Furo.

  7. [...] Acredito que as pessoas devem censurar certas piadas. Porém, a Renata Correa me mostrou que o humor pode falar de tudo, mas que ele só é realmente engraçado quando é criativo, quando cumpre sua função de destruir o senso comum. “A ofensa pela ofensa, pode causar espanto, surpresa, vergonha alheia, constrangimento. Mas ch…. [...]

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